Big Little Lies – 1×07 You Get What You Need (Series Finale)

17 de abril de 2017 Por:

“As vezes eu me seguro tão firme a essa ideia de perfeição que alguma coisa tem que ceder”, Madeline diz quando Abby pergunta por que ela quis destruir sua vida ao trair Ed. Madeline sabe que essa não é uma explicação e nem desculpa para ter começado um caso com o diretor do teatro ou por nunca ter contado sobre a traição ao marido, mas que esse seu pequeno grande segredo a permitiu fugir do selo de esposa e mãe perfeita. Ah, a perfeição.

Em todos seus episódios, Big Little Lies apresentou diferentes formas de perfeição: a própria Madeline, a mulher que superou o abandono do seu primeiro marido e hoje, é feliz ao lado do gentil Ed com quem recomeçou sua vida e teve sua segunda filha; Celeste, a mulher que conquistou um marido com um corpo que foi esculpido por deuses gregos e desejo sexual de fazer inveja na vizinhança e é mãe de dois lindos anjinhos; Bonnie, aquela que tem o corpo moldado por deuses desconhecidos, uma sensualidade espontânea e uma espiritualidade genuína e faz Nathan parecer um marido razoavelmente bom; Renata, a mãe que conseguiu equilibrar com excelência o seu incrível trabalho com todas as atividades que a maternidade exigem. E Jane é forasteira, aquela que, mesmo se quiser, nunca vai cumprir as exigências que essas mulheres cumprem. Então, temos o óbvio: sim, essas são apenas aparências e sim, a grama do vizinho é sempre mais verde. Mas essas mulheres usam a ilusão dessas vidas perfeitas como colares no pescoço e é difícil não notar como essas características são limitadoras.

Quando Renata imagina o que aconteceria se ela levasse um tiro na festa de angariação de fundos da escola de Amabella, ela rascunha falas maldosas que a atacariam por não ter desviado da bala ou por não deixar a babá ser atingida ao invés dela. “Essas mulheres – Madeline especialmente – são perversas.” A ilusão da vida perfeita não só aprisiona como afasta cada uma dessas mulheres. Afinal, não há contato ou compaixão se não se conhece a vulnerabilidade do outro. Os comentários feitos constantemente por pais e funcionários da escola durante a investigação do crime que acontece nessa festa não são muito diferentes desses escritos pela imaginação de Renata. Como espectadora, me sinto um pouco culpada em achar essas falas divertidas e engraçadas quando elas utilizam da maldade para criar intrigas fúteis. Mas essa é a tática de metade dos reality shows que vemos: elevar as diferenças entre mulheres e valorizar comentários rasos para gerar dramas frívolos. No entanto, para Big Little Lies, essa estratégia não vinha para entreter ou confundir. A série quer nos lembrar que as pessoas que fizeram os comentários também são participantes das situações que movem a série, inclusive do assassinato que ocorreu dentro do seu espaço de fofoca e luxo.

Assim, essas mulheres e seus parceiros se vestem de Audrey Hepburn e Elvis Presley para participar de uma convenção de ilusão coletiva para provar que são aparentemente melhores que suas rivais. É uma competição superficialmente divertida e, ao mesmo tempo, surpreendentemente cruel. Mas como se preocupar se Ed é um melhor cantor que Nathan ou se a elegância do vestido de Renata ofusca a simples e ousada camisa branca de Madeline quando temos um assassinato em jogo?

As cenas da festa de angariação são apreensivas não só porque a série tem alguém para matar até o fim do episódio, mas porque o maior temor é que essa pessoa seja Celeste. As primeiras imagens de You Get What You Need são dos gritos da personagem e do seu corpo ao chão. Pode parecer apenas mais um dos ataques violentos e cotidianos de Perry, mas a medida que as cenas se revelam durante o episódio (é importante notar, que só temos acesso às imagens desse incidente quando Celeste está na casa que comprou, ou seja, só quando ela está longe do marido e se sente minimamente segura), percebemos que essa agressão é a mais pesada que vimos até aqui.

A intensidade das ações de Perry cresceram ao longo da temporada. Dos puxões de cabelo – atitude que às vezes pode ser uma expressão sexual normal – aos socos no estômago e empurrões contra uma cadeira, Big Little Lies mostra como aquele homem com o corpo esculpido por deuses e carinho infinito pelos filhos pode ser o esposo abusivo que pode acabar com a vida de sua parceira. E é importante que a série mostre mais uma vez que Perry não é abusivo apenas fisicamente, ele age como Celeste fosse sua posse. Outro acréscimo importante para o personagem – e isso é sempre destacado na atuação de Alexander Skarsgård – é que, apesar das atitudes de Perry serem fisicamente fortes, suas reações surgem de uma fragilidade e insegurança emocional. Por isso, ele tem acesso ao telefone da amada e descobre que ela tem uma outra casa para morar com os filhos e que pretende deixá-lo. No caminho e durante a festa, Perry se comporta como um animal selvagem tentando encurralar sua presa. Ele prende Celeste dentro do carro para tentar convencê-la que pode mudar seu comportamento e que está fazendo de tudo para isso. Quando a esposa consegue fugir e segue para festa, Perry segue seus rastros até a encontrá-la ao lado de Renata, Madeline e Jane.

A série usa esse clima de caça e caçador até esse encontro que coincide com a segunda grande revelação – a primeira é Ziggy contando que a criança que vem intimidando Amabella é Max – do episódio: Jane finalmente alcança o homem que a estuprou e ele é Perry. Essa informação é revelada no clímax do episódio, mas a série nunca deixa a cena progredir para entendermos o seu resultado logo de cara. Mas há duas qualidades importantes de Big Little Lies aqui. A primeira delas é a simplicidade. A série utiliza poucas conversas expositivas – e quando tem, ela consegue mascarar muito bem – e é impossível pensar em uma cena que fica sobrando dentro do roteiro proposto porque tudo é mostrado com um motivo. Logo, é tocante quando Jane consegue informar a Madeline e Celeste que o homem que está diante delas é o mesmo daquela fatídica noite. Ela não precisa verbalizar que Perry é pai de Ziggy porque o relacionamento de confiança e parceria que ela construiu com as amigas até aqui permite que isso seja feito apenas com o olhar. A outra característica importante para esse momento é que Big Little Lies foge do óbvio. Era se esperado que Jane atirasse em Perry e finalmente alcançasse sua vingaça, afinal ela treinou e imaginou isso inúmeras vezes, mas não é o que acontece.

O desfecho dessa cena só é mostrada nos minutos finais de You Get What You Need quando Celeste, Madeline, Jane, Renata e Bonnie se reunem na praia com os seus filhos. Perry já foi enterrado e a investigação sobre sua morte foi aparentemente encerrada, então a série nos permite mergulhar em uma sensação estranha de calmaria. Só depois de nos mostrar como essas cinco mulheres encontraram algum tipo de paz e tranquilidade em conjunto, Big Little Lies nos transporta de volta para a festa. Perry indo para cima de Celeste, Jane, Madeline e Renata tentando conter seus golpes e Bonnie – que viu Perry segurando o braço da esposa e decidiu seguí-lo – correndo para empurrá-lo.

Com excessão aos gritos e reações finais, a cena não é mostrada com o áudio original. A série mescla a música da trilha com o som do mar. As imagens seguem o mesmo padrão, a série edita a cena da briga que é lindamente coreografada com shots do mar, espaço que as personagens estão ocupando no momento presente. É uma mistura caótica e visualmente impressionante, mas que faz muito sentido. A morte de Perry nas mãos dessas mulheres – especialmente pelas de Bonnie – é um resultado surpreendentemente otimista aos outros desfechos possíveis diante da perversidade do personagem, mas ela é um fardo e segredo que essas mulheres carregarão juntas. A observação da detetive Quinlan pode até nos lembrar que muitas coisas ruins ainda podem acontecer para essas mulheres, mas pelo menos agora, elas seguem juntas. Celeste, Madeline, Jane, Renata e Bonnie pertencem ao mesmo clube e – como a própria Jane diria – elas estão todas fudidas.

Review demorou para sair porque a vida ficou bem intensa nessas últimas semanas, mas aqui estamos e quero saber sua opinião. Gostou de You Get What You Need? Se surpreendeu com as revelações do episódio? Já está com saudade de Madeline e Chloe? Deixe seu comentário e até a próxima.

 

Jornalista, nerd e feminista. Melhor amiga da Mindy Kaling, mesmo que ela não saiba disso.

Salto / São Paulo

Série Favorita: Sherlock

Não assiste de jeito nenhum: Two and Half Men

  • Moisés

    Não ia ter outra temporada?

    • carol oliveira

      Parece que não

      • Eduardo

        Até a própria autora do livro quer uma 2a temp, mas ao que parece Reese e Nicole estão mais interessadas em adaptar o outro livro, Truly Madly Guilty – que é uma historia diferente.

        E, sinceramente, BLL não precisa de sequência. O final pode ter sido meio apressado, mas funcionou perfeitamente.

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