Big Little Lies – 1×03 Living the Dream

12 de março de 2017 Por:

A primeira imagem de Living the Dream, terceiro episódio de Big Little Lies, mostra uma mulher no mar. A cena é rebobinada até vermos ela fora da água com os sapatos na mão, uma peça de roupa a seus pés e o vestido azul que está em seu corpo parecendo desajeitado. O som de oceano é o mais evidente, mas também ouvimos uma criança gritando “mãe, mãe, mãe”. O chamado fica mais alto gradativamente. Então, somos tirados da cena ao mar e retornamos ao presente de Jane.

Não é a primeira vez que vemos a mesma cena, mas essa é a primeira vez que chegamos perto dessa mulher que até então não tinha a identidade revelada. Nos primeiros episódios do drama, vemos a mulher correndo na praia e o contexto da cena nunca é explicado. Por muito tempo, imaginei que essa imagem pertencia a momentos depois do assassinato, mas a construção de Big Little Lies é muito mais inteligente que minha imaginação.

A cena pertence ao passado de Jane. Anos antes, ela decide ir a um hotel com um homem que ela conheceu em um bar. Ele era “engraçado e sexy”, como ela própria descreve, e os dois estavam agradavelmente bêbados. Jane relembra do lugar como “bonito e romântico” e então, o homem repentinamente muda de comportamento e se torna extremamente agressivo. Ela conta a Madeline que tentou resistir no início, mas que ele era muito mais forte e que temia que ele poderia matá-la. Depois que ele terminou o “ato”, ele se despediu. Jane o segue na praia, mas seus passos terminam em um ponto e ela não consegue encontrá-lo. O único nome que ele deu foi Saxon Banks – Banks, como o pai em Mary Poppins – e uma pesquisa no Google não foi suficiente para encontrá-lo. Ziggy é fruto desse encontro.

“Eu sei que eu tenho que continuar seguindo em frente. Aquela criança terá uma vida boa”, Jane afirma no fim da conversa com Madeline. E ela realmente está tentando seguir em frente: a mudança para Monterrey, a nova escola, as novas amigas, o treino de baisebol de Ziggy… No entanto, é a imagem de Jane na praia que se sempre se repete e mesmo que a voz de Ziggy sempre a chame de volta para realidade, Jane entende que não tem como superar o que aconteceu. O estupro de Jane é aquela ferida aberta que mesmo depois de curada deixa uma cicatriz difícil de ignorar. Por isso, antes de deixar Jane contar sua história, Big Little Lies mostrava e repetia a cena da praia: a série sempre nos lembra que há muito mais dentro dessas mulheres que nós ainda conhecemos e que essas informações serão reveladas aos poucos.

Mas tem outro feito da série que deve ser reconhecido nesse episódio e é a forma como ela decide relatar o estupro de sua personagem. A cena em que o ato de violência é narrado tem mais ou menos quatro minutos e em nenhum momento Big Little Lies tira a narrativa da perspectiva de Jane. Essa não é só a primeira vez que o público ouve a história, é a primeira vez que Jane se abre sobre o que aconteceu e como isso ainda afeta sua vida para alguém. Por isso, só a voz dela é importante e é o que ouvimos durante os quatro minutos. O trabalho de câmera também mostra que a única coisa que importa é sua perspectiva. Na verdade, no único momento em que realmente vemos o ato, a câmera está posicionada onde está o banheiro do quarto e nos indica que é a lembrança de Jane sobre o fato. A edição também é essencial nessa construção. As cenas nunca são exibidas em ordem cronológica e apoiam a ideia de que é a memória de alguém que sofreu um trauma.

É comum ver o estupro ser retratado como um arco dramático em que suas personagens – na sua grande parte mulheres, mas provavelmente alguns de vocês já assistiu algum drama em que esse “plot” é destinado a gays e trans também – devem sair mais fortes, vingativas e bad ass. Mas há muito sobre violência sexual que a ficção ainda perde e é importante nos lembrarmos que o estupro não deve ser utilizado como um plot para dar força, motivação ou profundidade a personagens (principalmente, se isso for usado para impulsionar homens, né meninas?). Cenas de estupro doem, incomodam e tocam no mais sensível que cada pessoa tem, por isso a única voz que importa nessas histórias é a da vítima.

Living The Dream não se dedica apenas a Jane, o episódio também desenvolve a relação de Celeste e Perry apresentando cenas que já são comuns no relacionamento – marido é agressivo, esposa reage como pode, marido pede desculpa com presente e promessas, esposa perdoa, eles transam e esperamos esse ciclo recomeçar. Esse é o segredo e o cotidiano do casal que apesar de já não ser mais novidade para o público tem que ser repetido porque o comportamente de Perry é recorrente.

“Existe uma linha entre paixão e fúria, e talvez nós a atravessamos.” É o que Perry diz quando tenta explicar como seu relacionamento funciona para a psicóloga. É importante notar que quando ele retrata a agressividade presente no casamento, ele sempre usa a segunda pessoa do plural: nós. Para ele – e acredito que para Celeste também -, ela tem um papel dentro da violência que sofre e que de alguma forma ela é culpada por isso – talvez porque ele não consegue fazê-la feliz ou talvez porque ela é muito bonita ou talvez porque se ela terminar com ele outros homens certamente irão se interessar. Alexander Skarsgård faz um trabalho incrível ao mostrar que a insegurança, fragilidade e medo de Perry durante a sessão são genuínos, e a ligação que ele tem como Nicole Kidman é sempre admirável.

Mas é Nicole que destrói cada coração com sua performance nesse episódio. Diante da psicóloga, é Perry que fala mais e depois de algum hesito das duas partes, é ele que revela que bate na esposa. Celeste tenta ocultar fatos importantes e só se pronuncia quando a profissional pergunta alguma coisa. “Eu me sinto envergonhada”, ela finalmente diz, mas todas as outras vezes que ela tenta expressar como ela se sente com o que acontece no seu casamento, as palavras falham. Então, Nicole nos deixa ver através de Celeste e tudo que a personagem não consegue falar é expressado com sua postura corporal – a forma como ela evita olhar para a psicóloga ou para o marido e até as lágrimas que ela não consegue segurar. É como se o que Celeste falasse valesse menos do que o vemos. Ela diz vai deixar o marido, mas as manchas roxas no braço ou os desenhos dos filhos na cozinha nos lembram que isso pode não acontecer.

Por fim, temos Madeline assumindo finalmente sua posição de “estraguei a vida da minha filha”. Aliás, essa é uma situação que toda mãe deve passar em algum momento na vida em diferentes estágios, mas é engrassado como isso surge como uma surpresa para a personagem. Madeline deve se orgulhar de ser a pedra no sapato de algumas pessoas – cof Renata cof – mas isso não passou pela sua cabeça com Abigail. Ela tirou todos os obstáculos da vida de Abby e não considera em nenhum momento que sua mania de perfeição poderia pressionar a filha de uma forma negativa. Ver Abby deixando sua casa e ir morar com o pai – que só para lembrar: as deixou anos atrás – não é algo fácil, mas é algo que ela sabe que não pode evitar.

Madeline, Celeste e Jane têm que enfrentar – em níveis diferentes, é claro – coisas que são maiores de elas, mas perder o controle não parece uma opção. O que nos resta saber agora é como as situações que as amarram agora estão relacionadas com o crime da série e qual é a participação de cada uma delas.

Outros comentários:

– Eu quero escrever uns 2 mil caracteres sobre a relação de Big Little Lies com o mar, mas não vai ser hoje.

– Quer dizer que Diney’s on Ice e o aniversário de Anabella foram um sucesso? Ok, então.

– E quer dizer que vamos ter que ver a Zoë Kravitz exibir sua beleza e rebolado? Hum… interessante.

– Tem tanta coisa para falar sobre as três personagens principais que não sobra espaço para falar sobre Renata, mas Living The Dream dedicou um tempo para falar de seu casamento e como seus gemidos extremamente altos compensam pela falta de paixão que ela mostra pelo marido diariamente.

Jornalista, nerd e feminista. Melhor amiga da Mindy Kaling, mesmo que ela não saiba disso.

Salto / São Paulo

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