Black Mirror- 3×05 Men Against Fire

21 de outubro de 2016 Por:

Preconceito, cultura do ódio, manipulação, controle, extermínio social. Esses são alguns dos principais temas abordados no quinto episódio de Black Mirror, “Men Against Fire”. Nele acompanhamos a história de Stripe (Malachi Kirby), um soldado novato de um exército. Em sua primeira missão, comandado por Medina (Sarah Snook), Stripe é enviado ao lado de outros colegas a uma aldeia que foi atacada por baratas, seres abomináveis e que se constituem na maior ameaça para a civilização.

Ao lado de Ray (Madeline Brewer/Orange is the New Black), uma soldado mais experiente e apaixonada pelo que faz, Stripe obtém um ótimo desempenho em sua estreia, matando de cara dois dos baratas que haviam invadido a aldeia. Porém, ao encarar sem medo sua tarefa, ele acaba sendo “contaminado” por um objeto luminoso, que, ao emitir um som bastante incômodo, causou dores de cabeça e uma espécie de tontura. Assim, ao retornar para a base e executar suas tarefas diárias, ele sente-se mal e é enviado ao médico, que não vê nada de errado fisicamente com o soldado e o encaminha a uma espécie de psicólogo/diretor, Arquette (Michael Kelly /House of Cards), que através de perguntas, tenta avaliar o que essa primeira bem sucedida experiência representou para Stripe.

Arquette e Stripe episódio 5 de Black Mirror

Ao longo da história descobrimos que a particularidade dos militares é terem um chip implantado em seus cérebros, que “identifica” os baratas, mapeia os locais de ataque internamente, traduz o idioma dos aldeões para o inglês, entre outras facilidades. Mas, se por um lado os chips proporcionam tal nível de interatividade e tecnologia, por outro, funcionam como um forte instrumento de controle dos militares. Os implantes bloqueiam qualquer tipo de sensação básica, como olfato, por exemplo, e, até os sonhos dos soldados, são selecionados pelos superiores, que premiam com os “melhores sonhos” aqueles que se sobressaíram em suas tarefas.

Assim, um feliz Stripe é premiado com um sonho erótico com sua mulher e retoma suas atividades normalmente. Até que, em sua próxima missão, ele descobre que ainda sente os efeitos do objeto. Em uma situação de perigo ao invadir um prédio, onde um barata armado tenta matá-los, Stripe fica horrorizado ao perceber que Ray, extermina com a mesma facilidade humanos e baratas, com um ódio tão gigantesco, que ele acaba por golpeá-la para impedir que matasse uma mulher e seu filho. Afinal, os militares só exterminam baratas, certo?

Ray - episódio 5 de Black Mirror

Na fuga do prédio, um Stripe baleado aumenta seu nível de choque, ao ouvir de Catarina, a mulher a quem acabou de salvar que ela é uma barata. E que, se ele conseguia vê-la como humana, era porque o objeto alterou os efeitos do chip em seu cérebro, descortinando para Stripe, a crua e abominável realidade: eles exterminam, na verdade, seres humanos, aparentemente escolhidos de forma aleatória, mas que são considerados de uma casta inferior.

Black Mirror tem algo que poucas séries que seguem esse formato conseguem ter. Em cada história, nos desperta reflexões tão profundas acerca da sociedade e de nós mesmos que é praticamente impossível não pensar no episódio por muito e muito tempo. Como não associar o tema de “Men Against Fire” com o extermínio dos judeus na Segunda Guerra Mundial? Ou com obras como 1984 ou Admirável Mundo Novo? Como não se autoflagelar pensando em como a tecnologia muitas vezes só potencializa o pior lado da humanidade? Como podemos evoluir tanto tecnologicamente e quase nada como seres humanos? Como não sentir medo do poder da tecnologia no controle do indivíduo? Como não se apavorar com a destruição que a manipulação das massas pode causar?

Catarina e Stripe - episódio 5 de Black Mirror

E é com um sentimento de angústia que chegamos ao final do episódio, acompanhando um Stripe horrorizado consigo mesmo, com o lugar em que trabalha e com o nível de manipulação a que estava sendo submetido. Mas a descoberta mais dura fica realmente para as cenas finais. Stripe tem uma “escolha”: ele pode voltar a ser um soldado, ter suas memórias apagadas e seguir sua vida normalmente como militar exterminador de baratas, ou ficar preso numa cela, convivendo com as lembranças monstruosas do que ele acabara de fazer.

E foi com um misto resignação e vergonha que terminei o episódio entendendo a escolha de Stripe. Ao vê-lo ainda fardado, visitando sua antiga casa, toda decorada para rever sua mulher, entendi com tristeza, que tem escolhas que fazemos por simplesmente sermos incapazes de conviver com a realidade, que por vezes, é tão dura, que não nos consideramos fortes o suficiente para enfrentá-la. Ficam duas perguntas pra vocês: viver magnetizados dentro de um sonho pode ser considerado vida? Até que ponto somos nós mesmos os únicos responsáveis por nossas escolhas?

Stripe - episódio 5 de Black Mirror

 

 

Jornalista, cinéfila e literalmente, apaixonada por séries. Não recusa: viagem, saidinha com amigos, um curso novo de atualização/aprendizado em qualquer coisa legal. Ama: família, amigos, a vida e seus desdobramentos...

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Não assiste de jeito nenhum: Two and a half Men

  • João Paulo

    Muitas obras tentam recriar o soldado perfeito, geralmente com alterações genéticas e tudo mais, e aqui em Black Mirror nós vemos esse conceito da máscara, que foi trabalhada de forma muito criativa e inteligente.

    Que arma de guerra é melhor que uma que altera os seus soldados a ponto de melhorar os seus sentidos, sua mira, eliminar aqueles problemas indesejáveis de uma guerra, como o cheiro, até mesmo a empatia pelo outro e de quebra transforma seus inimigos em monstros? É simplesmente genial.

    Todo esse conceito é incrível, e a forma como foi exposto na série, durante aquele diálogo entre o psicólogo e o Stripe foram sensacionais e o ponto alto do episódio.

    Já não é novidade, os episódios de Black Mirror costumam trazer twists avassaladores e aqui não foi diferente. Descobrir que as baratas eram apenas humanos comuns, com “problemas” no sangue e personalidade, que levaram a uma segregação forçada por parte dos “poderosos que apenas querem o bem da sociedade”, foi chocante. O paralelo com o mundo real não podia ser mais propício.

    Enfim, pode não ter sido o melhor episódio de Black Mirror, na verdade, não fica nem no meu Top-3 da temporada, mas ele tem uma das melhores e mais pesadas críticas de toda a série.

    • Renata Carneiro

      Concordo plenamente, João. Essa é a arma de guerra perfeita mesmo porque elimina grande parte das pistas da desumanidade de um combate desse nível. Soldados armados contra pessoas comuns. Foi chocante, pertinente e pesado. Só discordamos no nosso Top-3. Esse entrou no meu… rs

  • Caio Olimpio

    Nestes tempos de ode ao militarismo, das idéias e ideais de ultradireita, da aceitação e briga pela normalização do ódio e combate de minorias, da busca pela imposição por meio de leis dos valores e moral de grupo para toda sociedade, da banalização e justificação da injustiça social, um episódio como este me assusta muito….

  • Rochamdf

    Sua resenha foi a melhor que eu li. Captou com precisão todas as sensações e pensamentos que tive ao ver o episódio. O engracasoé que se da uma googlada na internet sobre esse episodio, em particular e so tem esquerdista comentando a serie

  • Alexandre Martins

    Alguém pode me dizer qual foi a decisão dele?, fiquei confuso quanto a escolha.

    • Alejandro Lima

      Ele acaba por sonhar com a “mulher” dele… Entendi que ele aceitou a proposta de seguir em frente e ter suas memórias apagadas, já que foi recompensado com uma “boa noite de sono” = cena final em que reencontra aquela mulher.

      • Bruna Tankian

        Bom, quando eu o vi fardado, realmente pensei que ele tivesse escolhido a opção de apagar as memórias recentes e continuar a ser um soldado manipulado. Porém logo em seguida lhe cai uma lágrima, como se ele tivesse consciência da escolha que fez. Isso me deixou confusa porque se ele, tecnicamente, “aceitou” matar inocentes mesmo sem saber, ele não deveria chorar já que suas memórias foram apagadas e ele volta a ser mais um soldado manipulado. Então quando ele chora, é uma representação de culpa, arrependimento, ou algo assim.

  • Thiago Martins

    Achei a crítica muito boa, só faltou abordar se a mulher dele era real ou se era uma ilusão apenas, pq o episódio deixa essa dúvida no ar quando ele chega em casa e, de um ângulo, ele está vendo a mulher, e quando a câmera fica em outro ângulo, você repara que não tem mulher nenhuma, que ele está olhando pro nada.

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