Jessica Jones cria retrato da misoginia cotidiana

29 de novembro de 2015 Por:

Jessica-Jones

A primeira série de super heroína do Netflix, Jessica Jones, estreou no dia 20 de novembro, solidificando o caminho já traçado por Demolidor e indo além na construção da personagem principal, interpretada com brilhantismo por Krystten Ritter (Breaking Bad e Don’t trust the B**** in apartment 23). A série criada por Melissa Rosenberg (que tem em seu currículo Dexter, Birds of Prey e todos os cinco filmes da série Twilight) se baseia nos quadrinhos de ALIAS, escrita por Brian Michael Bendis e desenhada por Michael Gaydos. Creio que a adaptação agradará enormemente aos fãs da personagem, já que até mesmo a abertura referencia as belas capas dos quadrinhos. Na trama, Jessica Jones trabalha como investigadora particular e é contratada por um casal que procura por sua filha Hope. Jessica descobre que Hope foi sequestrada por Killgrave, um homem que tem o poder de controlar a mente das pessoas. Seguindo as ordens dele, Hope mata os próprios pais, é presa e pode ser condenada a duas prisões perpétuas. Jessica e Hope tem uma coisa em comum: ambas foram vítimas de Killgrave. Por isso, Jessica sabe que Hope é inocente e, apesar do medo que sente por seu algoz, decide ajudar a inocentá-la.

Jessica Jones é apresentada como uma pessoa que tem problemas financeiros, tendência ao alcoolismo, é misantropa e por vezes bastante egoísta. E também é uma pessoa com habilidades especiais, ela possui super força e a habilidade de saltar bem alto (e meio desajeitadamente). Com as habilidades que possui, Jessica poderia fazer parte dos vingadores, mas ela não quer ser uma heroína, ao menos não mais. Quem não conhece aquele mantra da Marvel da história do Spiderman “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”? Mas o caso é que antes de ter super poderes, Jessica é uma mulher lidando com as pesadas consequências de um relacionamento abusivo, que renderam a ela culpa, ansiedade, ataques de pânico e episódios de paranóia. Sintomas de uma depressão profunda que também se manifestam em Hope e em muitas outras mulheres que vivem situações parecidas, pois um dos grandes trunfos desta série é contar uma história que espelha a realidade. Assim, como exigir que alguém que não está em perfeitas condições psicológicas possar arcar com o peso de ser uma heroína? De salvar outras pessoas? Jessica decide que este não é o caminho para ela. Os fãs de spiderman que me perdoem, mas ela tem este direito. Podemos chamar Jessica de super anti-heroína, já que ela se recusa a ser esta heroína tradicional e toma atitudes moralmente questionáveis, mas no fundo ainda deseja fazer o que é certo.

Jessica-Jones-Kilgrave

Na primeira série da Marvel protagonizada por uma mulher não poderia haver um vilão mais perfeito. Killgrave é uma alegoria para a misoginia cotidiana. Ele não tem uma aparência assustadora, ao contrário, está sempre vestido muito elegantemente e é muito articulado. Lembrando-nos que a misoginia assume todas as faces, das mais agressivas às mais simpáticas, e todas são igualmente perigosas. Killgrave pode ter tudo o que quer, é só sugerir e as pessoas darão a ele qualquer coisa de bom grado. Talvez por isso ele seja um hedonista, ele vive de buscar pequenos prazeres, como comer nos melhores restaurantes, viver em hotéis de luxo e possuir a mulher que quiser, como se ela fosse uma coisa, um brinquedo. Basicamente uma personificação do male entitlement, que é a sensação que muitos homens têm de que merecem a afeição de uma mulher porque a tratou bem, ou pagou a conta do restaurante ou simplesmente porque sim. Killgrave obriga as mulheres a sorrir. Este pequeno detalhe é mais uma prova de como este personagem é inspirado na realidade, já que as mulheres são desde crianças ensinadas a serem mais doces e polidas. Jessica ouve de um homem qualquer para quem ela pede uma informação que “Uma mulher rude é uma mulher solteira”. Esta frase sintetiza a obsessão de Killgrave por sorrisos femininos, que embelezam o mundo e atraem os homens, mas às vezes silenciam a dor das mulheres. Para Killgrave, isso não importa, desde que a ordem que ele criou não seja incomodada.

As personagens femininas fazem sexo várias vezes com seus respectivos parceiros e parceiras. O que é novidade nas séries de heróis e provavelmente podemos creditar isto à liberdade criativa oferecida pelo Netflix. As mulheres estão em primeiro plano na construção das cenas de sexo, elas estão por cima, sugerindo posições, recebendo e não apenas oferecendo e servindo de atrativo para o público masculino. A série primeiro estabelece o parâmetro do sexo saudável para então discutir a diferença primordial para o que é o estupro. Há um momento em que Jessica fala claramente que Killgrave a estuprou. É uma discussão pesada mas necessária, é preciso nomear a violência que ela sofreu. Killgrave achava que, se ele a tinha levado a bons restaurantes e hotéis, se tinha dado presentes caros a ela, então, não era estupro. Jessica lacra a discussão afirmando que não queria nada daquilo. Em outras palavras, ela não consentiu. Esta é uma série que respeita o seu público feminino, uma vez que a discussão está presente mas as cenas de estupro, não. Isto é muito importante nesta época em que grandes séries, como Game of Thrones, tratam o assunto de forma banalizada e por vezes até romantizada (como foi o caso do estupro de James contra Cersei, em que o próprio ator saiu em defesa da atitude do personagem, dizendo que não foi bem um estupro. E foi, sim).

Jessica-Jones-Luke-Cage

É inevitável comparar os dois relacionamentos na vida de Jessica: Luke Cage e Killgrave. A série contraria o estereótipo racista no qual o perigo está no homem negro selvagem. Luke é um homem tranquilo e carinhoso, que respeita os limites de Jessica, enquanto Killgrave, que tem o poder qualquer homem branco e rico tem, de ser bem aceito em qualquer ambiente, representa grande perigo.

Jessica Jones também ganha pontos porque sua trama central envolve mulheres colaborando umas com as outras para expor Killgrave. Novamente a série encontra respaldo na realidade. Jessica consola Hope ao fazê-la repetir que a culpa não era dela, e tenta a todo custo provar a existência de uma pessoa que é capaz de controlar mentes, mas toda a sociedade se volta contra Hope, como se tudo fosse uma invenção. Veja, este é um universo em que existem super heróis como o Hulk e o Thor, mas as pessoas ainda preferem dizer que as mulheres é que estão loucas ou mal intencionadas. Não é muito diferente do que acontece com as vítimas de estupro ou violência doméstica aqui na vida real, que são desacreditadas e desestimuladas a denunciar a violência sofrida.

jessica-trish

A pessoa que mais colabora com Jessica em sua jornada é a sua irmã e amiga Trish Walker, uma apresentadora de um programa de rádio que, no passado, já foi a estrela de um popular programa infantil chamado “Patsy”. As duas se conheceram na adolescência, Jessica tinha perdido seus pais e irmão em um acidente de carro e a mãe de Trish decide adotar Jessica para fortalecer o marketing da marca “Patsy”. Jessica acaba descobrindo seus poderes adquiridos no acidente e protege Trish de sua mãe, que a explorava. As duas se tornam grandes amigas. Mas após a história de Jessica com Killgrave, Jessica se afasta de Trish (e de todos). Trish é uma pessoa sem poderes (ao menos por enquanto), mas que tem esse desejo de ser uma super heroína e ajudar quem precisa. Ela tentou impulsionar Jessica neste sentido, mas as coisas não saíram como esperado. Embora não tenha poderes, Trish treina artes marciais e autodefesa. E é para ela que Jessica recorre quando precisa de dinheiro, amizade, conselhos. É também a única pessoa que Jessica ama.

Trish também se envolve em um relacionamento abusivo com o policial Will Simpson, que tem a síndrome do príncipe num cavalo branco, pois está a todo momento querendo salvá-la. Depois de idas e vindas, ele decide matar Jessica Jones. Embora a motivação dele seja outra, dado o contexto da série de espelhamento da sociedade, soou como um comportamento abusivo bastante comum: o isolamento da vítima. É muito comum que durante a fase de violência psicológica o homem isole a mulher das pessoas que se importam com ela, sejam parentes ou amigos. Apesar de estar em conformidade no subtexto geral, este é o personagem que achei mais mal construído, ele destoa do tom mais realista da série, a atuação foi fraca e o próprio personagem soa muito caricatural. Simpson é o elo fraco desta temporada, que passaria muito bem sem ele.

jessica-jerri

É até engraçado pensar em aplicar o teste Bechdel nesta série. O teste consiste em três perguntas simples:

  • Há duas ou mais mulheres na trama?
  • Elas falam entre si?
  • Sobre algum assunto que não seja um homem?

Pode parecer simples, mas muitos filmes, livros e séries não passariam neste teste. As mulheres desta série são tantas, na verdade são a maioria e conversam umas com as outras o tempo todo sobre vários temas. Assuntos profissionais, relacionamentos afetivos, divórcio, relacionamentos familiares e etc. Elas não estão apenas fazendo figuração, são parte integrante e indissociável da trama, têm complexidade e não se encaixam nos rótulos comuns de frágeis, vilãs, mocinhas, vítimas. Elas são um pouco de cada coisa em momentos distintos. Pego como exemplo o arco de Jeri Hogarth (que nos quadrinhos era homem), uma advogada lésbica que eventualmente contrata os serviços de investigadora particular de Jéssica. Jeri é uma mulher lésbica lidando com um divórcio litigioso, no qual sua esposa, traída, exige 75% de tudo que Jeri possui para assinar os papéis e sua atual namorada pressiona para que ela acelere o processo. O que poderia ser uma história bem comum na ficção, acaba se tornando algo novo porque vemos a situação por um novo prisma, que envolve apenas mulheres, todas com motivações justas. O que nos faz gostar destas personagens ainda que suas ações sejam frequentemente condenáveis. Não é uma série perfeita, entretanto. Creio que poderia haver mais diversidade entre os papéis femininos. Enquanto temos homens negros em papéis importantes, as mulheres negras aparecem de forma bastante periférica. Torço para que este problema seja corrigido na próxima temporada.

Jessica Jones está deslocada no universo criado pela Marvel não apenas por não ser uma história solar, não ter piadinhas bobas, não usar um collant decotado, por não ter um codinome, mas porque é uma história de mulheres. Isto é muito impactante, principalmente por causa da indústria na qual a história de Jéssica Jones se origina: Os quadrinhos. É verdade que temos uma gama importante de personagens femininas nesta indústria, contudo, elas são a contra-corrente, quase a resistência num meio em que as mulheres são constantemente representadas para satisfazer o olhar masculino do leitor, ou ainda para servir de motivação para um homem. Não é que mesmo personagens objetificadas não tenham seu valor, mas é necessário sinalizar que o problema existe e persiste ainda hoje. Dentro do Universo Cinemático da Marvel já temos exemplo: Como é possível que a Viúva Negra, uma personagem tão boa e querida pelo público, seja tratada como par romântico? ou que ela seja invisibilizada no merchandising? ou pior: seus colegas de elenco a chamem de vadia? A resposta é simples: Machismo. O machismo desta indústria é latente e precisava de uma heroína com um arco narrativo intenso e doloroso como o de Jessica Jones para percebermos o quanto sua história soa deslocada diante de tudo que já foi produzido sobre super heróis para a TV ou Cinema e o quão importante e renovador é dar espaço para que as mulheres possam contar suas próprias histórias e motivações.

Arquiteta, feminista, prefere uma noite de maratona de séries do que sair para a balada.

Brasília/DF

Série Favorita: The Walking Dead

Não assiste de jeito nenhum: Gilmore Girls, The O.C., One Tree Hill, Girls, Love

  • Lívia Guimarães Sandes

    Me desculpe pela linguagem mas que Texto Foda!! Parabéns!

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