Justiça – Final

24 de setembro de 2016 Por:

 Justiça teve uma estreia impecável, uma primeira semana muito boa, que familiarizou o público com a sua nova linguagem, as narrativas cruzadas e a linha temporal específica de cada dia da semana. Mas desde então, acabou se perdendo em algumas decisões de roteiro e chegou à última semana apresentando desfechos que ficaram abaixo das expectativas de quando a série começou.

elisa-vicente

A aproximação de Elisa e Vicente causou no público o mesmo efeito que nos próprios personagens: uma mistura de repulsa, estranheza e curiosidade para seguir adiante e ver no que dava. Eles foram unidos por duas Isabelas: a filha de Elisa, que amava Vicente, e a filha de Vicente, que amava Elisa. Houve ali no meio uma tentativa de vilanizar a falecida, com a revelação de um aborto e de um tipo de diário em que ela revelava que não gostava de Vicente pobre. É possível que isso tenha dado aos dois a “permissão” que faltava para passar por cima do crime cometido no passado e se envolverem. Uma relação cheia de pendências, mágoas e extremamente tóxica.

Mas nem tudo foi bem desenvolvido. Alguns plots foram introduzidos sem muita razão de ser, como o romance de Elisa e Theo, a caloura que se jogou da janela por causa do vazamento de fotos íntimas, o tiroteio no campus e o caso de Heitor e Sara. Além disso, o desfecho de Vicente poderia ser muito melhor desenvolvido. Se a ideia era mostrar que Elisa o deixou morrer, o tempo entre ela desistir de pedir socorro e a morte dele deveria ser muito maior. E considerando a narrativa de histórias cruzadas, seria bem mais interessante se o carro que bateu neles fosse de algum outro personagem em fuga.

Fátima teve a melhor história e o melhor destino no fim das contas. Ela não se deixou corromper pela prisão e, apesar do ódio que sentiu ao rever Douglas pela primeira vez, acabou perdoando o policial e se tornando uma grande amiga para ele. A história das quentinhas foi uma forma para que ele se redimisse de alguma forma e eles terminassem “quites”. Não acho que seja comparável, e no fim das contas o policial corrupto e racista e a oportunista aliciadora de menores acabaram tendo a melhor vida de todas. Fátima abriu mão de fazer o que muitos chamariam de justiça para ter paz. Paz para recuperar o tempo perdido, trazer os filhos de volta para o caminho do que é certo e para reconstruir a sua vida depois de sete anos em um pesadelo.

kellen

Já a “vingança” de Mayara foi um ponto fraco. Ela considerava Kellen a culpada pela desgraça da família, se prostituía na sauna dela para armar uma revanche e o máximo que ela consegue é fazer a patroa tomar um pé na bunda? Como se Kellen fosse passar mais que dois dias chorando as pitangas por causa de homem, né? Ainda tomou uma navalhada, pra ficar com o braço combinando com a cicatriz do Jesus e dizerem que é marca de família. O noivado do Douglas com a Bela Gil também parece ter sido um plot enfiado para fazer volume, o que não devia ser necessário em uma trama contada em cinco episódios.

A trama de Rose foi a minha maior decepção. Não por ser a pior (já chego em você, Maurício), mas por eu ter criado muitas expectativas que acabaram frustradas. Ela e Celso tiveram uma bela história, mas eles poderiam ser mais que um casal fofo, poderiam transformar a vida um do outro, e no fim das contas apenas superaram alguns problemas para seguirem a vida de sempre, só que juntos. A história de Rose se tornou menos importante que a de Celso, menos importante que a de Débora e menos importante até que a história dela mesma – a da garota pobre que tinha o sonho de ser jornalista.

Débora parecia viver uma vida tranquila com o marido, apesar do trauma e da dor, mas tudo isso foi completamente jogado fora quando ela decidiu se vingar do estuprador. Ela fez mal a ela mesma, a todas as pessoas que a amavam e até a gente que não tinha nada a ver com a história, como o bebê que deixou de ser adotado e o homem que foi espancado por engano. Tudo isso sem usar muito a cabeça, já que foi quase violentada pela segunda vez e terminou como fugitiva dos seus próprios fantasmas, posto que a justiça não deve liga-la ao caso depois que a carta de confissão foi destruída.

mauricio-antenor

Maurício é um homem de poucas palavras, contido, que observa mais do que fala. Com essas características, sua participação na trama teria que ser muito expressiva para que ele não se dissolvesse ali pelo fundo e virasse cenário. Não foi. Todo mundo era mais interessante que Maurício no dia de Maurício. Beatriz, Mayara, Kellen, Celso, Antenor, Vânia. Foi um personagem sem força em cena, o que tornou a sexta-feira um dia meio confuso, como se servisse só para aparar as arestas do resto da semana e andar em círculos dentro da própria linha principal.

Antenor e Vânia foram quase caricaturas, mas divertidos mesmo assim. A cara de pau, o cinismo e as rasteiras que eles estavam sempre dando um no outro seriam mais adequadas para novelas das 19h, mas a boca suja, não. De fato é irônico que um homem que cometeu tantos crimes, tenha acabado preso por causa de um que ele não cometeu de fato. Mas também é inacreditável que ele não soubesse que o hotel tinha câmeras. Se soubesse, certamente usaria dinheiro e influência para sumir com as imagens antes que a polícia encontrasse.

Apesar de todos os problemas citados no texto, ainda acho que Justiça se manteve um degrau acima do que estamos acostumados a ver na TV aberta brasileira. Ainda foi uma boa experiência acompanhar a estes vinte episódios e saber o que o destino guardava para os personagens, só é uma produção que tinha um potencial para ser muito maior do que foi, em termos de qualidade. Mas um passo de cada vez. Estamos indo em frente, e isso importa muito.

jornal

O que achou dos desfechos de Justiça?  Procurei falar de fatos ocorridos na terceira e quarta semana na review porque não consegui acompanhar todos os episódios a tempo de publicar os outros textos, então sinta-se à vontade para falar sobre eles também. Obrigada pela companhia e até a próxima!

Jornalistatriz, viajante, feminista e apaixonada por séries, pole dance e musicais.

Rio de Janeiro / RJ

Série Favorita: Homeland

Não assiste de jeito nenhum: Two and a Half Men

  • Nickolas Girotto

    Oi eu vi seu comentário lá, se você tivesse desistido eu entenderia haha eu quase desisti!
    A história do Vicente, na minha opinião estragou na hora que os dois se envolveram, o final até foi interessante, mas como você disse ele morreu e não importava se ela ligasse ou não, também achei que ficaria melhor se outro personagem tivesse batido no carro deles, e aquele fim da esposa dele (que eu não lembro o nome) tipo continuando um ciclo e vingança, aprendendo a atirar e tal, faria mais sentido se a Elisa tivesse matado mesmo o Vicente.
    A Fátima foi a melhor, o melhor fim, ela perdoou o cara, ele meio que compensou o que fez, só que ainda acabou feliz, a Fátima acabou feliz e podendo dar um futuro bom para seus filhos, isso foi legal.
    A história da Rose quase nem foi dela, foi da Débora, que matou o cara, só que acabou com toda a vida dela no processo, realmente decepcionou.
    E a do Mauricio foi aquilo né, não tem muito o que falar.

    No mais eu acho que a série podia se chamar Vingança haha

    Bjos Laís!! Até a próxima!!

    • Laís Rangel

      Olá, Nickolas!
      Eu soube que a Elisa e o Vicente se envolveriam na primeira semana (li um spoiler sem querer) e fiquei extremamente chocada. Acho que os atores fizeram um ótimo trabalho, mas a situação é bizarra de qualquer forma.
      Acho que no fim a grande mensagem que ficou foi a de que querer fazer justiça com as próprias mãos não é a melhor das ideias…
      Bjs, obrigada pelo comentário e até a próxima!

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