Justiça – Semana 2

4 de setembro de 2016 Por:

A segunda semana de Justiça intensificou as conexões entre as histórias e abriu o leque de personagens secundários, focando em suas tramas de forma quase equivalente à dos protagonistas. Os anos na cadeia transformaram suas vidas, mas em muitos aspectos eles estão mais presos ao passado do que gostariam. Algumas das redundâncias passaram um pouco do ponto de costurar as narrativas e se tornaram repetitivas, o que comprometeu um pouco o ritmo, comparado ao da primeira semana.

fatima jesus

Nas primeiras impressões da série, cheguei a comentar que o grande desafio da Globo seria manter a qualidade da série depois da primeira semana. A edição continua original, o texto bem conduzido e o elenco cada vez mais à vontade, mas eles já começaram a beber da fonte das narrativas embromadas das novelas. Não sei se focar apenas nos mesmos personagens da primeira semana seria suficiente para manter a série no ar por mais de um mês, mas alguns dos novos plots são bem desanimadores.

Vicente assassinou Isabela, passou apenas sete anos na prisão, saiu casado, com uma filha e retomou os estudos em uma universidade, mas isso não basta. Ele quer limpar a consciência pelo mal que fez, e para isso impõe a sua presença na vida e no trabalho de Elisa até que ela dê o perdão a que ele acredita ter direito. Por trás de todo o discurso de arrependimento existe um profundo egoísmo, de quem não entende o quanto a própria presença é nociva para uma mãe que perdeu a filha daquela forma. Com o tempo, é bem possível que Elisa se acostume com Vicente, mas ainda torço para que ela use essa relação, que ele faz tanta questão de construir, para se vingar de alguma forma.

Fátima tem um coração bom, mas é realmente espantosa a forma como ela parece ter deixado a mágoa de Douglas para trás. Seu filho mais novo virou ladrão e nem sequer lembrava do seu rosto, a filha mais velha se tornou vítima de exploração sexual ainda na adolescência. Tudo porque o policial a incriminou por algo que ela nunca fez. Ainda assim, ela o recebe em casa, dá comida, conversa civilizadamente e até ajuda nos momentos de dificuldade. Existe uma linha muito tênue entre a bondade e a trouxisse, e Fátima está a poucos milímetros de cair para o lado trouxa mesmo. Apesar disso, a cena mais emocionante da semana foi a do seu reencontro com Jesus, desde o assalto até o momento em que o menino chegou em casa. O diálogo flertou com o piegas, é verdade, mas se manteve mais bonito que clichê.

mayara kellen

O que me causa maior estranheza é a obstinação de Mayara em se vingar de Kellen. Não resta dúvidas de que a personagem é completamente sem caráter – só o fato de ser uma cafetina de menores já dispensaria outros argumentos. Mas achar que ela foi o maior problema, e não Douglas? Achar que ela deve ser punida, e não o dono do cachorro que atacou seu irmão, não o policial que plantou as drogas em sua casa e fez a mãe ser presa? Só se for porque ela “deu certo” na vida, e Douglas não. De qualquer forma, a história de mudar de identidade para vingar sua família destruída já foi muito usada na ficção, poderiam ter encontrado um caminho um pouco mais original.

Kellen não desconfiar de Mayara porque não a reconhecer é aceitável, mas não parece estranho que Antenor tenha aceitado Maurício como seu aliado com tanta facilidade? Eles se conheciam bem, desde a época da empresa de ônibus, ele viu que atropelou a esposa dele, fugiu e realmente acha que eles podem ser amigos? Além deste ponto, a trama de sexta parece ter dado muito mais destaque a Kellen, Mayara e a rede de prostituição que à vingança de Maurício em si. O golpe do helicóptero saiu pela culatra, com o candidato ainda mais fortalecido nas pesquisas e adotado como um herói regional. Então, Maurício, qual será o próximo passo?

E voltamos a Rose. A trama de quinta é a minha favorita da semana, e gosto da dinâmica tensa que se formou entre Rose, Celso e Kellen, os personagens mais presentes em todas as histórias. À primeira vista pode parecer apenas um triângulo amoroso, mas existe um jogo de poder e de alianças por trás do romance que torna a situação instigante e imprevisível. Imprevisível, inclusive, porque Rose é uma incógnita nas suas verdadeiras intenções. Em todas as cenas dela com Débora, comparando com as do primeiro episódio e com a relação que elas tinham, eu fiquei com a sensação de que talvez a vingança de sexta não seja apenas contra o estuprador, e sim contra a amiga que a abandonou em um momento de necessidade.

antenor

Existem elementos que foram introduzidos e que simplesmente não funcionaram. Téo, por exemplo, que vazou um vídeo íntimo e fez uma universitária tentar se matar. Toda a situação foi mal construída, corrida e deslocada entre a história de Elisa e a de Antenor. A personagem de Drica Moraes também não teve uma função bem definida e até agora tem feito figuração de luxo, assim como a esposa de Vicente. Heitor forçando Elisa a conviver com Vicente foi algo totalmente sem propósito. Rose transportando drogas novamente? Sério? E a conversa de Débora com o marido, quando ele confessa que matou o irmão para justificar que ela pode ser feliz, apesar do estupro… quanta falsa simetria comparar um acidente na infância – por mais trágicas que tenham sido as consequências – com um crime brutal que, por mais que ela tente, não pode simplesmente apagar da memória.

Justiça vai precisar tomar muito cuidado na condução das histórias e dos personagens que criou, pois os riscos de caírem em situações incoerentes tem ficado cada vez maior. Apesar dos deslizes já apontados, o saldo da semana ainda foi bastante positivo e o sucesso da série nas redes sociais é uma prova de que estamos diante de um produto de qualidade incomum na TV brasileira. Torço realmente para que eles consigam desenvolver e encerrar essas tramas com a mesma qualidade que começaram. E você? O que achou da segunda semana da série? Deixe seu comentário e até semana que vem!

Jornalistatriz, viajante, feminista e apaixonada por séries, pole dance e musicais.

Rio de Janeiro / RJ

Série Favorita: Homeland

Não assiste de jeito nenhum: Two and a Half Men

  • Nickolas Girotto

    Ta legal, tem coisas estranhas mas ta legal, eu gosto mais da história da Fátima, acho a mais triste no caso, mas em todas elas tem esses deslizes ai, ela meio que ficou próxima do policial, como assim?!?! blz ele achou a filha dela, mas não é o suficiente pra perdoar ele, o caso do Antenor, ele mata a mulher do Mauricio e acredita que ele esta ali pra ajudar haha dai o Helicóptero que o Mauricio da cai e esta tudo bem, que plano fraco esse do Mauricio e muito fácil de incrimina-lo. Só no que tu disse ali eu acho que as dores são equivalentes, a do estupro com matar o irmão brincando com armas, só muda que um é vitima e o outro é “culpado” coloco aspas pq os pais também são responsáveis por essa parte da arma.

    Até a próxima

    • Laís Rangel

      Oi, Nickolas!
      Pois é, tem uns furos e umas coisas mal explicadas, mas ainda é uma série bem interessante de acompanhar.
      Sobre a morte do irmão, acho que por eles serem crianças e se tratar de uma fatalidade, o trauma é mais “fácil” de superar, mas talvez eu tenha essa sensação porque pra mim é mais simples de me colocar na posição dela que na dele. E acho que isso é um ponto interessante da série… fazer o espectador se relacionar mais ou menos com os personagens de acordo com as próprias vivências, valores, opiniões…

      Obrigada pelo seu comentário, até a próxima!

      • Nickolas Girotto

        Eu nao estou diminuindo nenhuma das situações, eu acho só que as duas são muito grandes em nível de trauma, o que muda mesmo é ela ser a vitima e ele o culpado, afinal a vitima tem de quem sentir raiva ele só sentiria dele mesmo, não rola vingança da parte dele a não ser que ele se mate.

  • Ms Liss

    Achei o episódio de sexta o mais fraco de todos, de novo. Não sei, Cauã atua bem mas acho que falta algo ali. Sorte que nesse episódio teve mais Kellen e Suzi/Suzy do que Antenor e cia (os acontecimentos mais fortes ficaram a cargo deles, mas capaz de cada uma ter tido mais falas e presença em tela do que Maurício). Falta força nessa trama. Mas sobre as coisas boas: acho que as relações entre as histórias estão cada vez mais se estreitando, cada vez mais deixando de ser “dia da semana fulano, outro dia siclano” (se vê pela “invasão” de Kellen, Suzi/Suzy e Celso na trama de sexta, sendo que eles deveriam estar principalmente na de terça e, se pá, quinta) e se juntando, tornando a promessa da autora de que as tramas no final se tornariam uma só mais próxima de se realizar, e acho essa aproximação muito interessante. E também achei estranho a menina querer vingança justo de Kellen sendo que, se dependesse dela, Douglas nem teria um cachorro pra começo de conversa, o que basicamente não nos traria até onde estamos agora. E, de novo, também achei estranho Fátima estar toda amiga de Douglas, salvado ele da morte horas depois de ameaçar matá-lo. Pensei “filha, você colocou um facão no pescoço dele tem nem 10 minutos, sai daí”. Por mim Maurício e Antenor teriam morrido no acidente de helicóptero pra acabar logo com isso, mas vai que até o fim as coisas melhoram pra essa trama. Mas o esforço e o cuidado da emissora e dos envolvidos na criação da série é visível, e ela tem muito mais qualidades do que defeitos. P.S.; Vladimir Brichta tá um pão (oi vó) <3

    • Laís Rangel

      Oi, Liss!
      De fato, as coisas estão ficando cada vez mais interligadas, na última semana da série todo mundo deve fazer parte de todas as histórias. Maurício ainda não “decolou” (ops) como os outros protagonistas, mas acho que ele ainda vai crescer nos próximos episódios e se tornar mais importante. Imagina o Celso e a Fátima se pegando, menina! ahahaha

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