Primeiras Impressões: The Handmaid’s Tale

4 de maio de 2017 Por:

Aviso de Gatilho: A série mostra cenas de estupro e execuções.

Uma distopia é uma sociedade indesejada e assustadora, onde governos totalitaristas e desastres ambientais são cenários de um futuro desolador e desumano. A maioria das distopias que vemos tem como pano de fundo uma versão cyberpunk, como The 100, e é aqui que está o grande diferencial de The Handmaid’s Tale (baseada na obra original de Margaret Atwood, O Conto da Aia), que nos mostra que o “de antigamente” pode ser muito pior do que imaginamos.

Em um futuro próximo, a contaminação ambiental desenfreada causa um efeito inesperado na sociedade: a maioria das mulheres se tornou estéril. Para garantir a sobrevivência de sua população, um grupo fundamentalista cristão de extrema direita planeja um golpe de Estado sem precedentes, mata o Presidente, coloca a culpa em terroristas Islâmicos e toma o controle dos Estados Unidos (ou parte dele). A República de Gilead tem início. Esse governo totalitarista “recruta” as poucas mulheres ainda férteis, que são realocadas nas casas da elite e submetidas a estupros ritualizados por seus mestres, de modo a gerarem seus filhos.

Reprodução/HULU

Testemunhamos esse novo regime pelos olhos de Offred (Elisabeth Moss, de Mad Men). Durante uma tentativa de fuga, seu marido é executado e sua filha é abduzida. Por ser uma mulher fértil, é enviada para o Centro Vermelho, para receber treinamento como uma Handmaid (aia, serviçal). Lá, ela reencontra sua amiga de faculdade Moira (Samira Wiley, de Orange Is The New Black), uma mulher homossexual que não se resignará a uma vida de eterna servidão sem lutar pela liberdade.

O termo Handmaid remete à história bíblica de Raquel, esposa de Jacó. Como Raquel não podia conceber filhos, ela sugere que o marido emprenhar a serva Bila e, assim, conseguirem ter filhos.

Offred tem esse nome pois seu mestre é o Comandante Fred Waterford (Joseph Fiennes, de American Horror Story), e ela é “de Fred”. Sozinha na nova casa de subserviência, encontra companhia em outra Handmaid, Ofglen (Alexis Bledel, de Gilmore Girls), pois Handmais sempre devem andar acompanhadas. Mas, será que Ofglen é realmente confiável? E os outros integrantes da casa, como a Martha – espécie de governanta – Rita (Amanda Brugel, de Orphan Black), o motorista Nick (Max Minghella, de The Mindy Project), e a esposa do Comandante, Serena Joy Waterford (Yvonne Strahovski, de Chuck), será que algum deles é um Olho da República? Até onde Offred deverá ir para sobreviver e, quem sabe, conseguir resgatar sua filha?

Reprodução/HULU

O visual é muito bonito, remetendo aos tempos da colonização. As casas são todas com decoração de época, assim como as vestimentas, dando a impressão de que aquela é uma realidade deliberadamente fabricada para controlar seus integrantes. As tomadas também ajudam a manter o clima de ambiente abafado, com planos fechados e sem movimentação, onde o menor erro será o suficiente para retirá-lo de cena para que receba sua punição. A trilha sonora também está perfeita, mantendo a impressão de suspense e medo constante. Até mesmo o estilo de filmagem remete aos filmes das décadas de 30 e 40, que utilizavam o processo Technicolor (reparem na saturação das cores, principalmente no vermelho e no azul).

Essa não é uma série para quem é mais sensível ou suscetível a imagens fortes. Por mais “delicada” que tenha sido a cena do estupro cerimonial, é uma violação íntima absurdamente desagradável de acompanhar. Digo “delicada”, pois não houve nenhuma tentativa de erotizar o ato e o foco não foi no corpo da atriz, mas não houve delicadeza com a personagem, que é tratada como gado de procriação. Seu posicionamento – entre as pernas da esposa – enquanto o mestre mantem contato visual com ela, é muito chocante. As Handmaids literalmente são colocadas no papel de útero e não passam de um órgão reprodutor.

“Mas, porque não fazem um procedimento de inseminação artificial?”, é a pergunta de qualquer pessoa com alma. Pois bem, o novo governo não acredita na ciência e hormônios artificiais são totalmente banidos. Eles creem que foram as invenções do mundo moderno que ocasionaram as mazelas que vivem e, portanto, exigem que todos sigam métodos mais rudimentares possíveis. A Martha deve sovar o pão na mão e a Handmaid deve ser emprenhada pelo método tradicional. Sem contar que, por ser uma sociedade patriarcal, o homem sempre escolherá a opção em que pode utilizar do corpo da mulher, que é considerada cidadã de segunda classe.

A República é formada com bases em preceitos bíblicos, mas vemos contradições em todo momento. Essa é uma sociedade sitiada e mantida sob controle militar. Em toda esquina vemos “Anjos” portanto armamento pesado para manter as Handmaids “seguras”. Caso elas não sigam as leis de Gilead, punições severas lhes aguardam. Eu não sabia dizer se fiquei mais aliviado ao rever Janine (Madeline Brewer, de The Deleted) e perceber que ela não havia sido estuprada, ou em total choque ao saber que ela teve seu olho direito arrancado a sangue frio. Afinal, para parir, não é preciso enxergar.

Reprodução/HULU

Como se essa selvageria não bastasse, ainda temos corpos de traidores do governo pendurados a céu aberto, servindo de exemplo. Interessante notarmos que esses exemplos são: o padre de outra religião; o medico que praticava abortos; e o homossexual. Notamos um paralelo com os dias de hoje e as críticas que ouvimos de certos setores da política; criticando o diferente da norma e fazendo de tudo para dissuadi-lo ou eliminá-lo. A semelhança com discursos de políticos da administração Trump é estarrecedora, principalmente pelo fato de seu vice ser defensor ferrenho de terapias de conversão para homossexuais.

Fica implícito que existem células de resistência contra esse governo e, como a informação é manipulada pela mídia, é impossível sabermos o real alcance desse golpe. A história se passa em alguma região de Massachusetts, mas ainda há partes não completamente dominadas, com uma menção de recente vitória na antiga região da Flórida. Talvez isso seja um sinal de mudança e esperança para Offred.

A série vem em um momento perfeito para dialogarmos sobre a crescente misoginia no mundo. A população mundial só cresce, mas o discurso da bancada cristã ainda é o de “crescei-vos e multiplicai-vos”, tratando temas como aborto e controle de natalidade como crimes contra a humanidade. Para eles, o corpo da mulher não passa de um recipiente para gerar novos filhos e não cabe a elas o direto de decidirem o que fazer com ele. Aqui temos um exemplo exagerado do que pode vir a acontecer se esses mesmos homens brancos continuarem a decidirem as regras por nós, mas é extremamente importante nos conscientizarmos que, se não tomarmos alguma atitude com urgência, esse futuro pode não ser apenas uma forma de “entretenimento”.

Minha única reclamação sobre a série está, como sempre, para a falta de atores negros. Alguns pontos da história original foram alterados para que não fosse necessário tocar no tema do racismo, tanto que o marido e a melhor amiga de Offred são negros. Porém, a primeira morte, nos primeiros cinco minutos da série, é a de um negro. E, além de Moira, ainda não vi nenhuma outra Handmaid negra. De acordo com os produtores e a própria autora da obra original – que é consultora para a série – decidiram focar apenas no tema da misoginia, porém, ao reduzir essa parcela da população a apenas dois personagens, perde-se a oportunidade de discutir um tema tão importante. Talvez em temporadas futuras tenhamos esse enfoque, porém, por enquanto, fica a lacuna.

Reprodução/HULU

Por fim, estou investido na história de Offred e quero muito saber se ela conseguirá se reencontrar com a filha. Também quero saber qual será o destino das outras Handmaids e se a República continuará no comando sem nenhum antagonista para tentar tirá-los do poder. Acompanhemos.

Para quem se interessou pela trilha sonora (e pela maravilhosa música de encerramento), segue a lista:

The Handmaid’s Tale está disponível toda quarta feira, para os assinantes da Hulu.

Professor de idiomas com mais referências de Gilmore Girls na cabeça do que responsabilidade financeira. Fissurado em comics (Marvel e Image), Pokémon, Spice Girls e qualquer mangá das...

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  • Paulo, eu fiquei com receio quando vi que esse texto não seria escrito por uma mulher, mas você foi preciso na análise até mesmo da cena de estupro. The Handmaid’s Tale mexeu demais comigo porque eu temo que esse “futuro distópico”, vire só “futuro” qualquer dia desses. A direita está crescendo no mundo todo e eu tenho medo real de que as coisas só piorem pras minorias: sejam negros, mulheres, gays, trans, etc.

    E gostei muito da sua observação sobre a falta de atores negros, que me lembrou o tweet de uma mulher negra americana: “É interessante ver que a ideia de uma pessoa branca sobre futuro distópico é a realidade atual ou passada de uma pessoa de cor.” E é bem isso. Infelizmente The Handmaid’s Tale não é algo tão distante pra mulheres de muitos países, mas que a gente sumariamente ignora diariamente porque essas pessoas não fazem parte do “mundo civilizado”.

    Enfim, adorei a review <3

    • Paulo Halliwell

      Cristal, como te disse, só me dispus a fazer a review pois nenhuma mulher estava fazendo, pois também acho que uma voz feminina seria prioritária nessa análise.
      Apesar de me interessar muito pela causa feminista, nunca será minha intensão tomar para mim o foco do movimento.
      Tentei utilizar meu conhecimento de mundo, por também fazer parte de um grupo de minoria, para fazer a análise, mas o que realmente espero é que as barbaridades que testemunharemos nessa série façam com que todos repensem seus comportamentos, principalmente o homem branco cis e hétero.
      Sobre a falta de atores negros, é algo que não consigo mais deixar de notar em qualquer produção. Tenho esperança de que logo não precisarei mais focar nesse ponto.
      E muito obrigado!!!!

    • Janaina Helena

      Mesma coisa, eu li o texto e depois pensei em “qual das meninas escreveu este texto?” e me surpreendi, positivamente, quando vi que era um homem. Um texto muito bom, bem denso e que tratou de temas tão delicados de uma forma tb delicada, sem diminuir a importância! Parabéns para vc, Paulo e tb para o apx que sempre com posicionamentos tão próximos da realidade.

      • Paulo Halliwell

        Muito obrigado pelos elogios, Janaina. Tenho grandes mestras feministas que me inspiram muito a respeitar a jornada da mulher e foi com esses ensinamentos que busquei escrever a review. Mas espero que a próxima série seja analisada por uma voz feminina, pois é disso que precisamos!

  • Renata Carneiro

    Paulo, que review mara!
    Fique muito tentada a assistir, mas com um pouco de medo do nível de violência e abusos.
    Acho que vou dar uma chance no dia que estiver beeeem zen!

    • Paulo Halliwell

      Olá, Renata. Eu também não gosto nada de séries sobre violência, e intercalo os episódios com uma maratona de Friends para relaxar, mas essa é uma série que vale a pena o esforço!
      E que bom que gostou do texto, fico feliz!

  • Jullia Cardoso

    ” E, além de Moira, ainda não vi nenhuma outra Handmaid negra. ” Colega, desde o primeiro episodio vemos outra handmaid negra, tanto nos flashbacks do centro de treinamento, quando no dia a dia da Offred.

    • Paulo Halliwell

      Ola, Jullia. Sim, eu vi outra handmaid negra na cena no nascimento, teria que baixar o piloto para checar sobre o centro de treinamento, mas o que quis dizer é que não há personagens centrais além desses 2, o marido e a Moira. Mesmo essas handmaids que vemos: elas tem nome ou fala?

  • Mariana

    No livro todas as pessoas de outras religiões e de outras etnias que não fossem branca foram mortas, acho que isso teria sido bem mais legal de mostrar do que colocar atores negros, até pq não acho real nesse mundo criado em que ser homossexual é crime, dois brancos aceitarem ter um filho mestiço, pq a handsmaid é negra. Acho que mostrando isso a opressão ficaria mais clara.

    • Paulo Halliwell

      Olá, Mariana. Eles seguiram a questão de pessoas de outras religiões, veremos isso no terceiro episódio, e devo concordar contigo. A ideia dos produtores era de que o desespero pela reprodução seria tanto que a perspectiva de um filho mestiço seria irrelevante, mas eu divido muito!! Acho que perderam uma oportunidade de discussão incrível aqui, mas tudo bem, pois acertaram em tanta coisa que até merecem errar nisso!

  • Thais Polimeni

    Acabei de assistir ao primeiro episódio e adorei sua análise. Muito obrigada!!

    Bjs,

    • Paulo Halliwell

      Que bom que gostou, Thais. Depois que terminar, volta para comentar o que achou. Eu estou super atrasado com a análise do episódio final, mas se tudo der certo até semana que vem eu consegui colocar no ar! /

  • Rogério Dantas

    Comecei a assistir. O pior é que é a realidade retratada na séria parece muito palpável para nós.

    • Paulo Halliwell

      Olá, Rogério. É bem assustadora essa “coincidência”, né? Depois vem contar o que achou do finale, ok?

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