Primeiras Impressões: When We Rise

1 de março de 2017 Por:

Vez ou outra, a televisão americana resolve deixar seu preconceito e normatividade de lado e dá espaço para qualidade e informação. Em um desses raros momentos que nasce When We Rise, minissérie da ABC em 07 partes escrita por Dustin Lance Black que mostra as lutas, perdas e triunfos pessoas e políticos de um diverso grupo de indivíduos LGBT que foram pioneiros ao impulsionar o Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos.

Livremente baseada no livro de memórias de Cleve Jones – When We Rise: My Life in the Movement, Black nos entrega uma mistura perfeita de drama e documentário, se utilizando de imagens reais da época e introduzindo narrativas fictícias para costurar essas histórias. Testemunhamos, pelos olhos de 03 personagens principais, o desenrolar da luta pelos direitos LGBT desde 1969 até os dias modernos.

Cleve Jones (Guy Pearce, quando adulto, e Austin P. McKenzie, quando jovem) é um jovem do Arizona, mas, ao contar que é gay para o pai psicólogo e conservador tem 02 escolhas: ou enfrenta os tratamentos para “curar sua homossexualidade” propostos por ele (que incluem eletrochoque e lobotomia) ou sai de casa. Cleve se muda para São Francisco sem muitas expectativas de futuro, mas como único lugar onde poderia tentar buscar a felicidade. Ele só não esperava entrar a cidade em uma situação política tão diferente de quanto lhe contaram.

Roma Pauline Guy (Emily Skeggs, quando jovem) é uma jovem de família cristã que faz parte do movimento sufragista, mas está em conflito interno, pois, durante uma missão de paz no Togo, se apaixona por Diane (Fiona Dourif, quando jovem) e agora não consegue aceitar sua sexualidade e seguir sua luta em um mundo tão machista.

Ken Jones (Jonathan Majors, quando jovem) é da marinha e precisa tomar cuidado a todo o momento com seus movimentos, para que não desconfiem que ele tem um relacionamento homossexual com um colega de farda. Porém, ao ser indiretamente responsável pela morte de seu amante, se vê sem destino e sem um motivo para seguir em frente. Uma noite, vagando pelas ruas de São Francisco, ao entrar em um bar, percebe que não se trata de um lugar qualquer, mas um reduto de Dragqueens. É aqui que Ken se encontra com Roma e Cleve pela primeira vez, e juntos, vão lutar pelos direitos de uma sociedade mais igual e justa para todos.

A série é extremamente linda de ver, com uma adaptação de época muito bem feita. A atenção aos detalhes vai desde as roupas como aos eletrônicos nas lojas como a tipografia de uma revista. A introdução de reportagens de época dá o toque final não apenas ao período, mas à veracidade que a história necessita. Mas, por mais pesada que a história seja, em nenhum momento é difícil de acompanhar, pois a linguagem é sempre de otimismo e energia. Quando as situações estão ficando ruins, os personagens encontram forças na união e na garra dentro deles para lutarem mais uma vez.

Mesmo utilizando-se de um drama fictício como pano de fundo, é importante lembrarmos que todos os fatos narrados são verdadeiros. Nada do que aparece em tela (fora os dramas pessoas dos personagens) foi inventado. Jovens foram espancados por policiais nas ruas de São Francisco a mando do prefeito que queria ver sua cidade limpa para os turistas (hum, isso me parece familiar, acho que já ouvi essa frase em algum lugar de São Paulo). Jovens gays eram submetidos a terapias de conversão extremamente abusivas, pois a medicina da época ainda considerava a homossexualidade como uma enfermidade. Mulheres eram demitidas de seus empregos se fossem descobertas lésbicas.

Além dos 3 personagens principais, ainda teremos um grande elenco quando avançarmos no tempo. Vejam só que lista maravilhosa e invejável: Kevin McHale, Whoopi Goldberg, Mary-Louise Parker, Rosie O’Donnell, David Hyde Pierce, Richard Schiff, entre outros. Não é todo dia que conseguimos reunir tantas estrelas em um único projeto tão importante e tão controverso. Todos esses atores interpretarão uma gama enorme de pessoas que fizeram parte do movimento LGBT durante os anos. O que a série deixa bem claro é que nenhuma revolução é feita sozinha, portanto, é preciso a união de várias pessoas trabalhando para um bem em comum. Mesmo com um foco maior em Cleve, Roma e Ken, não esquecemos que eles não estão sós, muito menos são os únicos responsáveis pela luta.

Digo que o projeto é controverso pelo local onde é transmitido originalmente. O trailer tem uma taxa de desaprovação enorme, assim como qualquer projeto que envolva a causa LGBT ou que fale de racismo nos Estados Unidos. É incrível que muitos dos comentários são que a série não passa de uma ilusão da Esquerda, quando tudo que foi mostrado é baseado em fatos comprovados em jornais, revistas e reportagens. A ABC foi muito corajosa em seguir com a série justamente em uma era pós-Trump. Para piorar a situação, as datas de exibição precisaram ser modificadas e foi inserido um pronunciamento em rede nacional do presidente Cheeto logo após o episódio inicial.

A série estreou dia 27 de fevereiro e exibe suas partes 02 e 03 dia 01 de março, exibindo 02 partes por dia até o fim da semana. Eu indico imensamente, não apenas como fonte de entretenimento, mas como início de pesquisa histórica. Será uma fonte incrível de conhecimento.


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Professor de idiomas com mais referências de Gilmore Girls na cabeça do que responsabilidade financeira. Fissurado em comics (Marvel e Image), Pokémon, Spice Girls e qualquer mangá das...

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São Paulo / SP

Série Favorita: Gilmore Girls

Não assiste de jeito nenhum: Game of Thrones

  • Lu Lima

    otima serie sera que vai ter a segunda temporada

    • Paulo Halliwell

      Olá, Lu. Eu não acho que terá uma segunda temporada. Toda a história que queriam contar foi encerrada por aqui. Só se quiserem focar nos anos entre os eventos principais, o que eu acho desnecessário.

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