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[Personagem/Ator] Pablo Escobar/Wagner Moura

Por: em 17 de setembro de 2016

[Personagem/Ator] Pablo Escobar/Wagner Moura

Por: em

Spoiler Alert!

Este texto contém spoilers leves,

nada que estrague a série ou a sua experiência.

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No último dia 2 de setembro, estreou no Netflix a segunda temporada da série Narcos, que trata da história do narcotráfico na América Latina, em especial na Colômbia. As duas primeiras temporadas foram dedicadas ao período histórico da vida e legado de Pablo Escobar, talvez o maior narcotraficante do mundo, misturando ficção em realidade para recontar os eventos que fazem parte da história recente da Colômbia. Narcos, entretanto, não é apenas sobre Pablo Escobar, é sobre as relações intricadas e a devastação causada pelo tráfico. Por isso, ainda que saibamos que Pablo não escapará da morte (e isso nem pode ser considerado um spoiler, uma vez que é um fato da realidade), sabemos que o tráfico e os desdobramentos dele permanecem, não apenas na Colômbia mas em todo o mundo.

A abordagem da série e a definição do período da vida de Pablo a ser retratada é muito interessante. Não importa como Pablo se tornou um contrabandista, mas sim o que ele construiu como narcotraficante. Portanto, a história se inicia quando decide traficar pasta base de cocaína. Desde o primeiro momento na tela, Pablo deixa claro que ele é perigoso: ele é barrado por uma blitz policial. Imediatamente, ele começa a conversar calmamente com os policiais revelando aqui e ali que sabe o nome de suas esposas e filhos, mostrando que ele sabe exatamente quem eles são, onde encontrá-los e entre as linhas da conversa, fica evidente que aquelas palavras são ameaças de morte. E para deixar mais claro ainda, entra o chavão “plata o plomo” (dinheiro ou chumbo).

Pablo é um empresário do crime, ele contrata os melhores, suborna pessoas, e tem visão de negócio. Assim, ele sabe que é muito melhor estender o seu mercado para os Estados Unidos do que vender droga na Colômbia. Ele se junta a outros associados que formam o famoso Cartel de Medellín. Nós estamos acostumados a assistir histórias sobre bandidos, estão aí The Sopranos, Breaking Bad e praticamente toda a filmografia do Tarantino, mas os personagens da realidade às vezes desafiam a ficção. O grupo que integra o Cartel de Medellín não deixa a desejar a nenhum personagem ficcional. E a história real de Pablo muitas vezes soa como pura mentira.

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Desde o seu lançamento em 2015, Narcos foi bem recebido e aplaudido por boa parte do público e da crítica, enquanto ao mesmo tempo, era duramente criticado por diversos motivos. E acho que não existe maior receita para o sucesso do que despertar sentimentos tão antagônicos. A primeira polêmica é porque muitos colombianos sentem que o seu país só é lembrado no exterior por questões relacionadas ao tráfico, o que gera preconceito contra os colombianos e causa uma imagem internacional ruim. Nós, aqui no Brasil, também sofremos com o mesmo estereótipo. O recente caso do nadador olímpico que fingiu ter sido assaltado é um exemplo, ele quis usar o estereótipo da violência urbana no Rio de Janeiro para não ser prejudicado pelas próprias atitudes. Esse estereótipo é algo que paira sobre a América Latina, a idéia de que é uma região violenta.

Entretanto, são três as polêmicas que mais chamam a atenção e todas dizem respeito ao ator Wagner Moura. A primeira, é claro, é o seu sotaque, uma vez que o ator não é colombiano. A segunda, que tem sido bradada pelo filho de Pablo Escobar é que ele não foi consultado pela Netflix e a terceira – e mais interessante – é que a série glamurizou Pablo Escobar. As duas coisas estão diretamente ligadas à performance de Wagner Moura como Pablo Escobar.

A escolha de Wagner Moura para o papel foi tão criticada quanto elogiada. O motivo da crítica é a nacionalidade e o sotaque do ator. Imagine fazer um filme sobre um personagem histórico brasileiro usando um ator colombiano. Com certeza nós, brasileiros, ficaríamos bastante irritados, e distribuiríamos memes nas redes sociais. Apesar disso, a dedicação de Wagner em realizar um trabalho bem feito põe de lado o argumento. Ele se mudou para a Colômbia por seis meses, onde estudou com afinco o espanhol e tem sido muito respeitoso em relação à todas as críticas que recebeu, jamais diminuiu a importância delas.

Não é a primeira vez que personagens conhecidos do público vem de outras regiões, por exemplo, Renée Zellwegger, que interpreta Bridget Jones, não é britânica. Andrew Lincoln que interpreta o americano Rick Grimes em The Walking Dead, é britânico. O peso da crítica é muito mais pela questão histórica que poderia ter sido respeitada.  Entretanto, o sotaque pode ser relevado, visto que a série foi feita para uma audiência internacional. Mesmo entre aqueles que falam espanhol, muitos acreditam que o sotaque não é relevante frente à atuação incrível de Wagner Moura.

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A decisão dos criadores e roteiristas da série em não usar a consultoria do filho de Escobar não é motivo para crítica. Ao decidir contar uma história, especialmente uma biografia, é possível abordá-la de muitas maneiras. Obviamente, uma forma é consultar as pessoas próximas ao personagem escolhido, mas nem sempre a opinião das pessoas próximas é a mais importante para retratar alguém. Muitas vezes, a opinião das pessoas é obscurecida pelo afeto.

Chris Brancato, roteirista da primeira temporada, esclareceu que muitos livros foram escritos sobre Pablo e que ainda que não tenha sido consultado, o livro do filho de Pablo foi lido. Ou seja, não é justa a afirmação de que porque eles não se interessaram em ouvir a opinião do filho de Escobar, eles não fizeram uma boa pesquisa. O filho de Pablo poderia fornecer uma idéia mais aprofundada de como era o relacionamento de Pablo como pai e marido. Talvez o maior problema seja porque a dinâmica familiar é grande parte do que torna Pablo um personagem menos odioso e a interpretação de Wagner Moura nestes momentos em que o monstro se torna um marido apaixonado (ainda que nem sempre fiel) e um pai carinhoso é o que permite que o público consiga se conectar ao personagem.

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Essa conexão é muitas vezes confundida com glamurização. Mas a verdade é que as pessoas podem ser afetuosas e generosas em sua vida privada e mesmo assim cometer crimes horríveis, como é o caso de Escobar. Algumas pessoas dizem que a série retrata Escobar como um herói e isso não é verdade. É impossível ver como herói alguém que explode um avião cheio de pessoas inocentes. O que a série faz com perfeição é retratar Escobar como um homem cheio de defeitos, mas também algumas qualidades. Se adicionarmos a isso o carisma e a precisão da atuação de Wagner Moura, que conferiu a Pablo Escobar algumas notas de humor e de uma certa melancolia, é possível ver o ser humano por trás do monstro. Os críticos se esquecem de dizer que há também personagens do outro lado da guerra que são igualmente carismáticos, que por vezes também se deixam levar por caminhos duvidosos e problemáticos, como o coronel Carrillo e o agente do DEA Peña.

As críticas sempre devem ser ouvidas, mas os acertos não devem ser esquecidos. A escolha de Wagner para interpretar Escobar, no fim, se revelou um dos maiores trunfos da série e ao final da segunda temporada de Narcos, a carreira internacional de Wagner Moura finalmente tem uma base sólida. E a versão de Escobar oferecida por Moura não foi a primeira e nem será a última, mas com certeza soa como a mais interessante até agora.


Gizelli Sousa

Arquiteta, feminista, prefere uma noite de maratona de séries do que sair para a balada.

Brasília/DF

Série Favorita: The Walking Dead

Não assiste de jeito nenhum: Gilmore Girls, The O.C., One Tree Hill, Girls, Love

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