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Por que amamos anti-heróis

Por: em 26 de outubro de 2015

Por que amamos anti-heróis

Por: em

Estamos, há algumas décadas, na era dos anti-heróis. A televisão está tomada por eles. Há quem diga que é um modelo desgastado, em declínio. Bom, eu discordo. Vejo como um modelo que, sim, já é usado há algumas boas décadas, mas que ainda surte efeito, e esse efeito se traduz numa eterna paixonite. O anti-herói tende a nos conquistar de supetão, mas por quê?

No livro A Jornada do Escritor, Vogler diz que nos solidarizamos com esse tipo de herói. Isso, segundo o autor, acontece porque esses personagens são marginais e, em algum momento da vida, todos nós já nos sentimos marginalizados. O que faz sentido, pois, uma vez que esses arquétipos – como o do herói – refletem padrões de personalidade que todos nós compartilhamos, é natural que sua tradução na ficção também guarde semelhanças. Conseguimos nos identificar melhor com personagens falhos, como nós, do que com os que beiram a perfeição.

Acontece que às vezes esses anti-heróis têm posturas mais do que questionáveis e não apenas pequenas falhas. Como fica nossa identificação nesses casos? Eu diria que igualzinha. Já já explico por que. Antes, vamos recapitular três dos grandes anti-heróis das últimas décadas – apenas nas séries de TV e somente protagonistas.

Tony-Soprano
Para começar, o que talvez tenha dado início a era dos anti-heróis: Tony Soprano (The Sopranos). Ele é o chefe da maior organização criminosa de Nova Jérsei. É mafioso. Assassino. Tony não mata só seus inimigos, há momentos em que mata pessoas próximas, pois “é preciso”.

Dexter-Morgan
Vamos ignorar o que fizeram com o final de Dexter e focar no que interessa: a premissa. Dexter é um serial killer que trabalha para a polícia de Miami. Para satisfazer seu dark passenger ele precisa matar. Dexter mata, depois corta suas vítimas em pedacinhos, joga as partes no mar e guarda como souvenir o sangue delas em lâminas de vidro.

Walter-White
O anti-herói queridinho da década, sem dúvida, é Walter White (Breaking Bad). Traficante, inescrupuloso e assassino, seu personagem só piora com o passar do tempo.

Há outros protagonistas de moral duvidosa, como Don Draper (Mad Men), Frank Underwood (House of Cards), Jax Teller (Sons of Anarchy), Vic Mackey (The Shield) e Jackie Peyton (Nurse Jackie), entre muitos outros, mas vou me ater apenas aos três acima (pra vocês não me matarem com o tamanho do post hahah).

O que faz com que nos identifiquemos com esses personagens? Já entendemos que são suas falhas, certo? Elas os tornam mais reais, aproximam suas personalidades das nossas. Mas esses três que destaquei ultrapassam qualquer limite. Eles são criminosos e não qualquer criminosos: são assassinos, frios e cruéis. O que esses personagens têm em comum – e nos compele a perdoá-los – é um resquício de humanidade; eles são conflitados, complexos e têm boas intenções (por incrível que pareça).

Tony Soprano, apesar de chefe da máfia, luta com seus demônios como qualquer mortal. Ele sofre com ataques de ansiedade e faz análise. Tony se preocupa profundamente com suas famílias (a de sangue e a do crime) e faz de tudo por elas. E esse é o ponto de redenção: ele faz tudo por elas. Suas ações são justificadas, pois ele bota suas famílias em primeiro lugar. É o bem deles que busca. Apesar de sabermos que não é verdade, que ele age de acordo com interesses próprios, compramos que Tony acredita realmente nisso e, como consequência, seguimos nos enganando – como o personagem. Isso é suficiente, seus crimes são justificados: os fins justificam os meios.

O caso de Dexter é ainda mais fácil. Ele é serial killer? Sim, mas tem consciência! Seu pai, percebendo sua psicopatia, fez com que adotasse um código de conduta: só mataria assassinos (comprovados). Pronto, mais um pouco de Maquiavel (fins justificando os meios). Além disso, Dexter é órfão. E, para não restar um telespectador contra o personagem, somos presenteados com o primeiro encontro entre ele e Harry, seu pai adotivo: um pequenino Dexter assustado dentro de um container, ensopado com o sangue da mãe, assassinada brutalmente. Não há como não se comover com sua história.

E então temos o mais emblemático dos anti-heróis dessa lista. Antes de ser o perigo, Heisenberg era apenas Walter White. Um professor de química, frustrado, mal pago e com câncer. Por achar que seus dias estavam contados e em busca de dar um melhor futuro para a família, Walter começa a produzir – e traficar – metanfetamina. Já está justificado, né? Só que aí que está a graça desse caso, por isso o considero emblemático. Como suas ações se justificam logo de cara e temos algum tempo para nos apegarmos ao personagem (antes dele break bad), quando, de fato, desanda conseguimos relevar. Torcemos por ele, mesmo quando faz coisas atrozes. Há momentos em que é difícil encontrar qualquer resquício de humanidade em Heisenberg, mas aí ele tem um rompante de cuidado com Pinkman e tudo está perdoado.

Em alguns casos, acreditamos e torcemos pela redenção do personagem. Em outros, como em Breaking Bad, sabemos que não há salvação, mas esperamos que o anti-herói tenha um final justo (muitos pontos para Breaking Bad por corresponder à expectativa). Mas, em qualquer que seja o caso, conseguimos nos identificar com esses falhos personagens, pois eles servem como um reflexo de nós. Mesmo nos três casos apontados, que são extremos. Eles servem como uma catarse, somos purificados por suas ações.

Todo mundo tem um quê de anti-herói, os da ficção servem para satisfazer nossos (tortos) desejos tolhidos.


Fernanda Faria

Adora fazer nada, mas faz tudo ao mesmo tempo. Viciada em séries de tudo quanto é tipo, guarda um espacinho maior no coração para as de temática transgressora. Precisa de uma bela pitada de humor pra viver.

São Paulo - SP

Série Favorita: Breaking Bad

Não assiste de jeito nenhum: Supernatural

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