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Mad Men 4×06 – Waldorf Stories

Por: em 6 de setembro de 2010

Mad Men 4×06 – Waldorf Stories

Por: em

Mad Men Don Draper

Mad Men, the cure for the common TV.

Eu não sei até que ponto o calendário dessa temporada de Mad Men foi organizado pra que Waldorf Stories coincidisse com o dia da cerimônia do Emmy. Talvez um pouco de planejamento, talvez um pouco de sorte, mas qualquer que seja o caso — e provavelmente foi um pouco dos dois — é óbvio que as duas premiações da noite têm relações completamente distintas com a série. Enquanto o Emmy evidencia ano a ano o quanto Mad Men é fantástica, o Clio Awards evidencia o quanto Don Draper se afunda mais e mais e mais. Por mais repetitivo que seja quando eu falo que o Don tá cada vez mais patético nessa 4ª temporada, acho que agora finalmente tá na hora de afirmar com segurança: o cara chegou no fundo do poço.

Seria engraçado se não fosse angustiante a ansiedade de Don pra ganhar aquele prêmio. O Clio seria a prova de que as pessoas o reconhecem, o respeitam, sabem que ele é algo a mais do que aquele cara bêbado, sem família, sem amigos, sem um ‘eu’ verdadeiro. Mas ele não consegue esconder o nervosismo. Quando anunciam a sua vitória, a alegria e o alívio dele são imensos, mas no final das contas, o que aquele prêmio representa exatamente? A criação da ideia pro comercial nem dele foi. Em vez de a estatueta ajudar o Don a se sentir uma pessoa melhor, ela funcionou de maneira contrária, dando carta branca pra que nas comemorações excessivas, o publicitário encarne de maneira ainda mais intensa a vida bizarra que ele anda vivendo.

Tipo na reunião com os clientes do cereal — que se torna ainda mais bizarra se a gente prestar atenção como que a apresentação se liga com a season finale da primeira temporada. Lá, o discurso sobre nostalgia em relação ao Kodak Carousel era dado por um Don comovido pra caramba, mas ainda assim sob controle de sua vida. Aqui, o discurso sobre nostalgia em relação ao cereal Life é corrido, atropelado. E quando os clientes não compram a ideia mal vendida do slogan, um Don mais bêbado do que nunca acha que pode fazer um novo brainstorm ali mesmo, como se o prêmio que ele acabou de ganhar o validasse pra trabalhar daquele jeito. E é claro que não valida. “Enjoy the rest of your life: Cereal.” foi genial de tão tosco. “Life: the cure for the common cereal” foi genial de tão irônico.

Até porque o jeito que o moleque que deu a ideia pro slogan foi contratado espelha exatamente o jeito que o Don foi — os dois se aproveitaram do nível etílico de seus respectivos superiores. Don pode não ser uma fraude igual ao baixinho com seu portfólio (e bota baixinho nisso), mas ele também se aproveitou de Roger pra conseguir a vaga na Sterling Cooper. A diferença é que Danny deu sorte. Já Don, levando em consideração o sorrisinho malandro que ele abre logo quando entra no elevador nos últimos segundos do episódio, parecia saber exatamente o que estava fazendo. E no final das contas, essa é a grande diferença entre o Don atual e o Don do flashback.

Mad Men Don Draper Roger Sterling

Além de tudo, um dos maiores problemas da situação do Don é que ela não afeta só a ele. Peggy é outra personagem que morre de vontade de ser reconhecida, mas tem Don como obstáculo no meio do caminho. A ideia pro comercial da Glo-Coat basicamente foi dela, mas mesmo assim nem ingresso pra premiação ela teve. Então, em vez de mostrar seu valor em frente um grupão de publicitários, o jeito de Peggy mostrar suas qualidades e sua auto-confiança é enfrentando frente-a-frente o novo diretor de arte da SCDP, Stan. Pena que ao tirar a roupa, em vez de a Peggy me passar a impressão de que é uma pessoa segura consigo mesma, acontece o contrário. Parece que ela tá sempre querendo provas as suas qualidades pra todo mundo. Ela quer sempre a afirmação de que é boa de verdade. Por isso que ela ama a reunião com Danny no começo do episódio, vendo um profissional tão fraco, tão pior do que ela. E por isso que ela odeia a contratação do Danny no final do episódio, vendo um profissional tão fraco, tão pior do que ela… trabalhando ao seu lado.

O sentimento de Pete é parecido, mas o problema dele é pior, porque Cosgrove não é um profissional ruim, muito pelo contrário. Ele é um cara carismático e que pode trazer contas importantes pra agência. E apesar de Ken levar na boa quando Pete o empurra contra a parede falando que ele é o cara que manda ali, duvido que a relação entre os dois seja pacífica durante o restante dessa temporada. A única pessoa que cuida do atendimento da SCDP e pode ficar tranquila é o Roger, que só com a Lucky Strike mantém BEM o seu emprego. Mas mesmo assim — ou talvez até por isso — ele é MAIS UM que nesse episódio buscava reconhecimento. Ele sabe que não foi EXATEMENTE o responsável pela contratação do Don, mas na sua cabeça ele quer fingir que sim. Ele quer ouvir o Don dizendo isso em voz alta. Ele quer colocar no seu livro de memórias.

Afinal, todo mundo tá em busca de reconhecimento. Todo mundo quer dar valor ao seu nome. É gratificante. Nos faz sentir bem. É o que a música dos créditos diz num tom tão alegre, tão otimista, tão contrastante com o resto da série. Eu abri um sorriso enorme quando Ladder Of Success começou a tocar não porque eu via um fio de esperança naquele Don novinho subindo no elevador, tão audacioso. Mas porque me fez lembrar que se uma série me deixa tão envolvido com seus personagens e desperta tantos sentimentos como Mad Men me faz… É porque o negócio é bom demais.

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P.S.: Já foi a terceira vez nessa temporada que foi usado aquele recurso de mostrar o Don parado em algum canto enquanto o tempo vai passando. Fica um pouco repetitvo, mas é uma repetição com própósito: o tempo passa e o Don não anda. Ele não vai pra frente. Não consegue sair do lugar.

P.S. 2: As ideias pras exclamações do Pete deve ser uma das coisas mais divertidas do mundo na sala dos roteiristas da série. Semana passada eu comentei do CHRIST ON A CRACKER, mas o desse episódio não ficou muito atrás: JUDAS PRIEST!

P.S. 3: Sacanagem o Harry soltando spoiler de Peyton Place. Eu ainda não vi, pô.

P.S. 4: Não sei se já dava pra reparar antes, mas nesse episódio teve uma cena CLARA mostrando que a secretária do Don usa peruca. Já disse que eu amo aquela personagem?

P.S. 5: Não sei como tive cabeça pra escrever essa review. Eu assisti ao 4×07 logo antes de começar a escrever, e desculpem o palavrão, mas puta merda. É o episódio da temporada até agora. Corram pra ver. Tô doido pra comentar sobre ele.

P.S. 6: E aí, Galvão… É tetra ano que vem?


Guilherme Peres

Designer

Rio de Janeiro - RJ

Série Favorita:

Não assiste de jeito nenhum:

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