Borgen é uma série dinamarquesa das mesmas produtoras de The Killing (a versão original) e se assemelha com a nossa querida House of Cards por tratar do mesmo tema, um drama político que envolve o alto escalão do governo nos seus países. Embora a primeira temporada de House of Cards seja toda focada na luta que Frank trava para chegar a presidência, aqui a gente acompanha uma monarquia parlamentar e Borgen (3 temporadas, 30 episódios e já finalizada) já começa nos dias anteriores a eleição e nos apresenta a vida política de Copenhague dividida em dois núcleos: o gabinete do primeiro ministro e sua vida e o cotidiano dentro de um jornal de TV que tem abordagem política.

O lado político
Muito diferente de Frank – e o ponto alto de Borgen, diga-se de passagem – a protagonista aqui é Birgitte Nyborg (Sidse Babett Knudsen), a líder do partido que está na corrida pelo maior número de cadeiras no parlamento, que no caso deste regime de governo dá uma série de vantagens ao partido, inclusive o de indicar o primeiro ministro, a pessoa que governa o país, já que a rainha, assim como a rainha da Inglaterra, está lá para representar, não para governar. Birgitte tem que administrar a política, sua família, lidar com ministros e com a imprensa. Um detalhe marcante da mudança é mostrarem no primeiro episódio ela indo trabalhar de bicicleta e depois tendo que se adaptar a ir de carro com forte segurança.

Birgitte tem uma grande equipe trabalhando com ela na eleição e é uma mulher de princípios, Frank Underwood não se daria bem com ela, que sempre tenta fazer a coisa certa e falar a verdade. Como exemplo, logo no primeiro episódio ela recebe uma informação sobre má conduta do atual primeiro ministro que pode mudar a sua sorte e resolve não usar, pois o primeiro ministro está de luto. Kasper (Pilou Asbæk) seu ajudante (assessor de marketing, na série chamado de spindoctor, achei apropriado e adorei o nome!) não tem a mesma ética que sua chefe e resolve divulgar a informação para um dos outros candidatos que usa a informação durante um debate na maior rede de televisão do país.
Este fato e a polêmica de todo o debate faz com que o partido de Birgitte vença as eleições e consiga o maior número de cadeiras, e ela passa então a ter que lutar para conseguir o cargo de primeira ministra, lutar muito mais do que um homem, porque todos eles afirmam que ela não tem o que é necessário para fazer a política que eles fazem, mesmo que ela seja a pessoa mais adequada para o cargo.
A série então acompanha a vida pessoal de Birgitte, que tem um marido e dois filhos, e como a política a faz mudar, como ela lida com o cargo e com as decisões difíceis que tem que fazer, como lidar com os ministros e os jogos de interesse que passa por todos os lados. Assim como Frank Underwood, Birgitte também tem assessores, o líder do partido e amigo a aconselha, assim como o Spindoctor e em cada episódio vemos um ou outro político, em sua maioria os ministros.
Um dos momentos memoráveis da primeira temporada é quando ela e sua ministra da economia querem implantar uma lei de igualdade de gêneros no país, para que todas as conselhos públicos e privado s sejam formadas por ao menos 45% de mulheres. É uma luta que precisa ser feita e obviamente ela encontra muita resistência, mesmo num pais como a Dinamarca a ministra sofre preconceito por ter sido modelo e por ter namorado muito, as duas mulheres tem que lutar muito para conseguirem aprovar a lei. Reproduzo um diálogo da Primeira ministra com o maior empresário do país sobre a agenda:
Joachim Chrone: Compreendemos perfeitamente que, como mulher o Primeiro-Ministro se sente compelido a lutar pelas mulheres. No entanto, é um direito dos executivos escolher os membros do seu conselho.
Primeira Ministra: E ainda é. Só que agora metade deles serão mulheres.
O lado jornalístico:
Isso nos trás a um outro núcleo da série, assim como em House of Cards, a imprensa é importante para trazer o tema da política para a população, para questionar as decisões e fazer com que se expliquem em público. A principal personagem desse núcleo é a Katrine (Birgitte Hjort Sørensen) repórter da TV1, uma jovem que chega ao principal cargo da emissora sendo muito teimosa e com um particular interesse em investigações. Diferentemente de House of Cards, Birgitte e seu assessor não tentam envenenar a imprensa, e abafar tudo de forma desonesta, mas tentam lidar com a verdade.

Katrine tem também uma conexão pessoal conturbada com o spindoctor Kasper, que lhe dá acesso a algumas informações e facilidades em lidar com a primeira ministra, mas ela não é usada pelo governo como os jornalistas são em House of Cards. Sua história pessoal também é bem desenvolvida com o tempo, assim como o seu lado impetuoso na vida profissional. Ela se dá bem com alguns de seus colegas, mas outros não a acham adequada para o cargo, ou que ela tenha feito algo para subir tão rápido. Mas a verdade é que Katrine é inteligente, teimosa e sempre afiada nas perguntas e nas muitas entrevista que conduz durante os episódios.
A jovem jornalista a principio perde o apoio de uma jornalista antiga do jornal, mas o seu editor gosta do seu trabalho, e ela é capaz de sustentar o papel questionador das atitudes do governo que todo jornalista por principio deveria ter, levando isso ao seu jornal e ao público, afirmando diversas vezes que os cidadãos devem ter conhecimento do que acontece nos bastidores do governo, pois tudo afeta a sociedade.
Em todos os núcleos temos diálogos interessantes, desenvolvimento dos personagens principais e em cada episódio Borgen trás a tona um tema importante para a política e sua repercussão dentro do governo e fora dele, assim como o impacto na vida pessoa de cada um dos envolvidos. Apesar de ter a vida de cada um como plano de fundo de toda a temporada, diferentemente de House of Cards Borgen discute estes temas em cada episódio, e o assunto é encerrado nele, mas suas implicações continuam no dia a dia.
Borgen vale cada minuto por sua história bem contada, personagens cativantes, sem grandes vilões ou planos maquiavélicos e assassinatos, também pelo cenário diferente do que estamos acostumados e pela língua bem diferente do inglês, com sotaque interessante e novos rostos. É bom refrescar os ouvidos e olhos, embora ela traga um cenário político tão interessante, mostra os tramites entre parlamento e governo de uma forma que nos parece quase utópicas, dado o nosso cenário atual. Vale a pena também como um ponto de reflexão sobre posicionamento político, ético e moral.




