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Switched at Birth – 5×03 Surprise /5×04 Relation of Lines and Colors

Por: em 27 de fevereiro de 2017

Switched at Birth – 5×03 Surprise /5×04 Relation of Lines and Colors

Por: em

É difícil começar esse texto. Digo isso após muito tempo refletindo sobre como inicia-lo. Nas duas últimas semanas Switched at Birth tocou em muitos temas sensíveis e deixou muitas questões para serem analisadas por seu público. Não sei se já digeri tudo o que vi, assim como não sei se tenho as respostas corretas para as indagações que ficam, mas posso, ao menos, tentar continuar a discussão iniciada pela série.

Em Surprise tivemos o retorno de Tank e Mary Beth, que agora formam um casal. E, honestamente, não faço ideia do que pensar sobre isso. Às vezes sinto que Switched at Birth tenta nos fazer sentir pena de Tank, por ele estar sofrendo as consequências de seus atos. Acho extremamente válido mostrar que, em uma sociedade na qual o machismo é estrutural e não se discute questões de gênero, todo homem pode cometer alguma forma de violência – física ou psicológica – contra mulheres. Além disso, é importante desmistificar o conceito de estuprador como uma figura monstruosa que habita as sombras a espera da próxima garota. Estupradores, muitas vezes, são pessoas próximas à vítimas e é extremamente necessário evidenciar esse fato. Porém, os esforços para aliviar a imagem do personagem me incomodam um pouco.

Tank estuprou Bay, não é necessário entrar novamente nessa discussão, e está apenas pagando – de forma bem leve, diga-se de passagem – por isso. É provável que se arrependa genuinamente do que fez e que faria diferente se pudesse voltar no tempo, nada disso, no entanto, apaga a violência sofrida pela garota e todos os traumas que ela carregará para o resto da vida. Após expressar esse meu descontentamento é preciso mencionar que, assim como o episódio nos mostra, Mary Beth não é necessariamente uma pessoa ruim por estar se relacionando com Tank. Para ser sincera, não consigo conceber como esse namoro começou, mas estou tentando não julgar, afinal a vida é repleta de acontecimentos estranhos e a menina passava por um momento extremamente delicado.

Mary Beth tem direito de escolher o que acredita ser melhor para si, ainda assim, é impossível negar que sua amizade com Bay está ameaçada e por bons motivos. Não consigo imaginar um mundo em que alguém continue amigo de uma pessoa que está namorando seu estuprador. Isso ultrapassa qualquer limite. É verdade que Bay está em um relacionamento com Travis, ex de Mary Beth, mas há uma falsa simetria gigantesca em comparar as duas situações.

Namorar o ex de uma amiga já é uma questão polêmica, mas, uma vez que o namoro tenha acabado de forma saudável, cabe apenas aos envolvidos decidirem como lidar com suas emoções e seguirem – ou não – em frente. Namorar o estuprador de uma amiga é ignorar o mal que aquele homem fez a uma pessoa que você supostamente ama (é ignorar o mal que aquele homem fez a outra mulher, o que para mim já seria suficiente para passar bem longe de Tank) e, bem ou mal, acabar impondo a presença do agressor à vítima. Definitivamente não vejo como isso poderia funcionar. Além disso, não entendo a necessidade desse plot a essa altura do campeonato. Não acho que devemos simplesmente esquecer que Bay foi abusada, muito pelo contrário, mas há outras formas de explorar o trauma do que essa historinha bizarra.

Surprise também focou no relacionamento entre Tobby e Lily. Um ano após o nascimento do filho, as coisas estão bem longe de um conto de fadas para o jovem casal. São muitos os fatores que influenciam isso, o primeiro deles está nos papéis de gênero ainda vigentes em nossa sociedade. Como mãe, Lily deve deixa sua vida profissional de lado para focar em seu filho e marido, Já Tobby deve ser o mantenedor e conseguir dinheiro para sustentar sua família, mesmo que isso signifique não estar sempre presente. O fato de terem um filho com Síndrome de Down intensifica essa lógica, já que a criança precisa de mais cuidados e muitos desses cuidados exigem dinheiro. Mas não para por aí. As personalidades dos dois também têm grande impacto em seus problemas. Lily possui a tendência a ser controladora e Tobby se fecha e se envolve em apostas quando está com problemas. A soma disso tudo poderia ter sido desastrosas, porém, após uma conversa sincera e necessária, os dois resolveram voltar para Kansas City e tentar se acertar.

Relation of Lines and Colors, por sua vez retomou a trama do segundo episódio, focando no racismo no campus da UMKC. Fico feliz em ver que esse é um plot que irá atravessar a temporada, ao invés de ser apenas tema de um episódio isolado. Em um contexto no qual vemos relatos diários de violência contra negros, sem mencionar as violências que a sociedade invisibiliza ou relativiza, é extremamente necessário falarmos sobre as disparidades e opressões diárias que negros sofrem apenas por serem negros.

Dito isso, Daphne se esqueceu do que significa lugar de falar, né? Nem parece a garota que, em meados da segunda temporada (#saudades) se incomodou quando Bay conversou com um jornalista sobre a ocupação na Carlton, tomando o protagonismo de uma luta que, por mais que ela apoiasse, não era a dela. O que a menina faz aqui é o mesmo e talvez pior, porque, ao tentar ajudar sem entender realmente aquele movimento e aquela luta, ela acaba atrapalhando em diversos momentos.

Além disso, continuo incomodada com o destaque que Daphne tem recebido dentro dessa trama. Entendo que ela é uma das protagonistas, e foi ótimo vê-la admitir que nunca entenderá o que é ser negra e aceitando que seu lugar naquele movimento é apoiando aquelas pessoas e não tomando a frente, mas considero problemático ver a luta de um movimento negro através de olhos brancos. Iris e Sharee deveriam ser as condutoras dessas histórias e não meras coadjuvantes que aparecem ocasionalmente para soltar algumas verdades.

De qualquer forma, SurpriseRelation of Lines and Colors foram episódios melhores que os dois primeiros, o que não os exime de ter seus problemas. Ainda acho que essa temporada está soando desconexa e muita coisa tem sido simplesmente chocada na tela. Temos questões de grande importância social sendo trabalhadas e isso é sempre válido, porém, a execução tem deixado a desejar. Disse na review passada e repito aqui: Switched at Birth sabe fazer melhor do que isso.

Observações:

— Amo com a Melody realmente adotou o Travis;

— Esse triângulo amoroso Emmett – Bay – Travis já deu o que tinha que dar. Quero a Bay terminando essa série sozinha;

— Quando é que o Travis vai aprender a controlar seu temperamento? Fiquei com pena por ele perder a vaga no time titular, mas não dá pra ficar meses vivendo de amor na China e depois voltar como se nada tivesse acontecido;

—Emmett tem uma overdose, quase se mata, descobre que tem depressão e… tudo bem? Vão simplesmente envolve-lo em uma trama amorosa quanto há questões muito mais urgentes e interessantes a serem desenvolvidas? Como pessoa que sofre com transtornos de ansiedade estou, pra dizer o mínimo, decepcionada com o modo que Switched at Birth tem tratado problemas referentes à saúde mental.

— Kathryn sofreu assédio no ambiente de trabalho e ainda foi chamada de louca ao se revoltar. Triste, mas algo que acontece que muitas mulheres;

— A chefe da Bay está roubando as ideias dela e estou achando toda essa história bem chatinha;

— As reviews estão finalmente em dia e agora sim os textos voltam a seguir um ordem normal.


Thais Medeiros

Uma fangirl desastrada, melodramática e indecisa, tentando (sem muito sucesso) sobreviver ao mundo dos adultos. Louca dos signos e das fanfics e convicta de que a Lufa-Lufa é a melhor casa de Hogwarts. Se pudesse viveria de açaí e pão de queijo.

Paracatu/ MG

Série Favorita: My Mad Fat Diary

Não assiste de jeito nenhum: Revenge