Dia Internacional do Combate a Homofobia – Representatividade importa!

17 de maio de 2016 Por:

Na próxima quarta-feira, dia 24 de maio, faz exatos 16 anos que o beijo de Jack McPhee (Kerr Smith) em Ethan, no season finale da 3ª temporada de Dawson’s Creek (intitulado de True Love), entrou para a história como o primeiro beijo entre duas pessoas do mesmo sexo em uma série adolescente, no horário nobre americano. Agora, parece um gesto simples e comum, graças a infinidade personagens LGBT que existem nas séries de TV. À época, contudo, era um passo enorme. (Recentemente, Greg Berlanti – produtor da série-  revelou em entrevista o quão complicado foi levar isso adiante e que chegou até a pensar em se demitir caso a WB, canal do show, vetasse a cena).

Porém, mesmo com essa normalidade, ainda temos muito o que avançar e discutir. Hoje, 17 de maio, todo o mundo “celebra” o dia internacional de combate a homofobia. A escolha da data se deu após a exclusão da homossexualidade do catálogo de doenças da OMS (Organização Mundial de Saúde), em 17 de maio de 1990. É comum, neste dia, a ocorrência de passeatas, beijaços, campanhas ou qualquer outro tipo de manifestação de apoio à população LGBT. São gestos bacanas, que possuem o objetivo de sensibilizar a sociedade a uma causa que, por mais que tenha conseguido ganhar um espaço nos centros de debate, ainda recebe por onde passa piadas preconceituosas, olhares de reprovação e até mesmo descaso.

No que tange as séries de TV, a melhor forma de atingir essa sensibilidade é pelo campo da representatividade. Criticada por alguns, defendida por tantos outros, a inserção de personagens LGBT nos programas de TV evoluiu gradativamente na última década e, à sua maneira, ajudou a diminuir, ainda que pouco, o preconceito que ainda está enraizado e é latente na sociedade. Quando algo ganha corpo, gestos e fala e passa a fazer parte do dia-a-dia (ainda que de maneira ficcional), ele se torna comum. Quando ele se torna comum, os olhos que outrora seriam de julgamento e rejeição, passam a ser de, se não aceitação, respeito.  É por isso que representatividade importa. Importa muito. Importa muito mais do que você acha que importa.

kevin and scotty

O mesmo Greg Berlanti que não soube se o beijo gay de Dawson’s Creek seria aceito, também foi produtor de Brothers and Sisters, série dramática da ABC que durou 5 temporadas e que traz um dos mais antigos e melhores modelos de representatividade dentro da tv aberta. O casal formado por Kevin e Scotty foi tratado com tamanha naturalidade que não precisou de muito para se tornar um dos favoritos do público. Eles agiam como qualquer um dos casais heterossexuais da trama e tinham plots muitas vezes mais interessantes e com maior destaque, até. Há um episódio voltado exclusivamente para o casamento dos dois, bem como momentos de flashback de Kevin com sua mãe, Nora, que pontuam questões também importantes como o autopreconceito que muitos adolescentes LGBT possuem consigo mesmo.

Na ocasião, assistimos um Kevin adolescente afastar e ferir, acidentalmente, um colega da escola, após ser beijado pelo mesmo. O gesto é instintivo e Kevin o faz sem pensar, mas as consequências são drásticas. O garoto fica paraplégico, fato que é escondido de Kevin por seus pais e seu irmão mais velho. É só adulto que ele encara a verdade e ao perceber que o medo de si próprio mudou para sempre a vida de outro, o personagem entra em um processo de culpa, flagelo e dor, que resulta em uma cena maravilhosa com sua mãe, onde ele escuta que ela sempre soube da orientação sexual do filho e que tudo que o fez, fez para protegê-lo do mundo e de tudo que poderia ferí-lo lá fora. Alguém seria capaz de condená-la?

A adolescência de Kevin se passava em algum ponto entre o começo do anos 80 e, portanto, torna-se bastante compreensível. Se hoje em dia, ainda é complicado e espinhoso tratar sobre certos temas, àquela época, o buraco era muito mais embaixo. E é mais uma vez aí que a questão da representatividade importa. Séries teens são feitas exclusivamente para o público adolescente. Seus personagens beijam, fazem sexo, sofrem, choram… Passam por todas as fases comuns à vida de um adolescente. É esse processo de identificação que faz com que a audiência fidelize. O poder enxergar a si próprio naqueles personagens; poder ver, ali, um espelho da sua realidade. Uma coisa com a qual o adolescente LGBT que cresceu na década de 90, nos anos 2000 e, até mesmo hoje, não encontrou/encontra com facilidade.

willow and tara

Claro, os bons exemplos existiram e eles precisam ser louvados. No começo dos anos 2000, Buffy também escreveu seu nome na história por, entre muitas coisas, explorar o relacionamento lésbico entre Willow e Tara. Antes de se apaixonar pela amiga, Willow já havia namorado Oz e se apaixonado pelo amigo Xander, o que já mostrou uma ousadia ainda maior de Joss Whedon e produção. Se já era complicado lidar com um personagem gay, imagina então com um bissexual? O roteiro, contudo, não se intimidou. Durante 3 temporadas, desenvolveu com maestria o relacionamento entre as duas garotas, ainda que de maneira sutil, sem muitos beijos e muitas cenas afetivas, mas acertando em cheio na construção sentimental. As duas até hoje são consideradas como um dos melhores (senão o melhor) casal da série e o final agridoce (que não entrarei em detalhes caso alguém ainda pretenda assistir a série – e deveria) ainda causa revolta.

Séries teens famosas como The OC One Tree Hill falharam nesse aspecto. Ambas abordaram o assunto de uma forma superficial, dedicando arcos de poucos episódios e personagens não muito significantes e, neste ponto, passam batidas (The OC ainda leva um puxão de orelha maior, por ter feito com que o relacionamento de Marissa e Alex soasse apenas como uma “fase” enquanto a garota procurava a todo custo provocar a mãe). É no fim da primeira década dos anos 2000 que as séries do nicho começaram a voltar a seus olhos para a temática. (Ao menos, em território americano. Nas terras da Rainha, desde 2007, Skins já tratava do tema com a naturalidade e o tom necessários).  Teddy em 90210, Kurt e Blaine em Glee e mais recentemente Emily de Pretty Little LiarsAlec de Shadowhunters e Josh e Aiden em The Originals são alguns exemplos de personagens LGBT’s em séries teens relativamente famosas e que tiveram um desenvolvimento cuidadoso o suficiente para que pudessem servir de espelho e exemplo para os fãs das ditas séries.

queer-as-folk

Mas enquanto a TV aberta e as séries teens davam seus primeiros passos, na TV fechada americana, a coisa já caminhava a passos mais largos. De 2000 a 2005, a Showtime levou ao ar Queer as Folk, talvez a primeira grande série do gênero (seguiram-se a ela outros grandes nomes como The L World e mais recentemente, Looking). Contando o cotidiano de 5 amigos gays, a série tratou dos mais diversos temas, como intolerância, DST, adoção, casamento, direitos civis, primeiro amor, aceitação familiar, autoaceitação… Tudo e mais um pouco, por assim dizer, sem contar as cenas de sexo realistas e bastante ousadas, mesmo para o que é produzido nos dias de hoje.  Outras séries famosas da tv fechada como Six Feet Under Spartacus também trouxeram importantes personagens gays em sua trama. Na primeira, David (interpretado por Michael C. Hall) era um dos protagonistas da história e, ao lado de seu namorado, Keith, protagonizou ótimos momentos. Já na produção épica do Starz, o casal Agron e Nasir também foi retratado com cuidado e destaque, tornando-se bastante querido entre o público.

Diferente do caso das séries voltadas ao público adolescente, a representatividade aqui está ligada, na maioria das vezes, mais a uma questão de aceitação externa do que interna. O público destas séries é, em teoria, um público mais adulto e, diferente do adolescente que muitas vezes não entende ou não convive/conhece alguém que seja LGBT, já possui uma conhecimento maior de causa, mas muitas vezes, ainda traz preconceitos enraizados que precisam ser colocados abaixo para que possamos construir uma sociedade mais justa e menos discriminatória.

nyssa-sarah

Partindo do mesmo princípio, entendemos a importância da representatividade dentro das séries de super-herói, gênero que ganha cada vez mais força. Ironicamente, o meio nerd ainda é, em sua essência, muito preconceituoso e não aceita facilmente mudanças naquilo que considera como o “ideal”. Por isso mesmo, é muito importante o trabalho que vem sendo feito gradativamente dentro do gênero, ainda que estejamos longe do ideal. Há tempos, seria impensável uma Canário Negro bissexual ou um Senhor Incrível gay, mas Arrow foi lá e fez, sem se preocupar com o que os fãs mais xiitas iriam pensar. A inserção do romance de Sara e Nyssa foi um dos pontos fortes da série do Arqueiro Verde e Curtis é um dos melhores personagens recém adicionados a história. Atualmente no ar em Legends of Tomorrow, Sara (agora como Canário Branco) teve um envolvimento com o Capitão Cold (que, vejam só, é interpretado por um ator assumidamente gay), reforçando sua bissexualidade. The Flash, de vez em quando, nos mostra um pouco de Hartley, conhecido como Flautista, um vilão homossexual das HQ’s e que, durante suas pequenas participações, manteve esta característica.

No que diz respeito ao universo Marvel, ainda há muito que se avançar, contudo. Excetuando-se a adição de Joey nesta temporada de Agents of S.H.I.E.L.D (que ainda assim, nem de longe teve um destaque significativo) e a presença de Jeri em Jessica Jones, o universo ainda é carente de representatividade LGBT e isso precisa ser resolvido, pra ontem.

connor-jude-the-fosters

E é também importante que falemos sobre os casais não convencionais, afinal não são apenas os adultos e adolescentes que sentem. Neste ponto, algumas séries merecem aplausos de pé e uma delas é The Fosters, produção da Freeform. Connor e Jude protagonizaram o beijo gay mais jovem da história da TV americana e abriram caminho para um debate importante e interessante sobre o aflorar da sexualidade na pré-adolescência, aquela fase da vida em que ainda estamos tentando entender como lidar com tudo o que sentimos e com o que acontece ao nosso redor. A história dos dois meninos vem, então, como um alento para aquela criança que se sente “diferente” ou “não pertencente”. A mensagem de The Fosters é clara: Vocês pertencem.

E essa é a mensagem que a representatividade passa (ou ao menos precisa passar, para que funcione): Pertencimento. Seja para aquele adolescente confuso que não sabe o que sente, para aquele adulto com medo de assumir seus sentimentos, aquela criança assustada e amedrontada… ou mesmo aquele telespectador que não é LGBT, que não entende isso, que não sabe o que essas pessoas estão passando e que, por não saber, acaba faltando na empatia e no famoso “se colocar no lugar do outro”. Para o primeiro grupo, a chave é o sentir que não se está sozinho. Para o segundo, é o sentir que não existe apenas um tipo de amor ou um tipo de orientação sexual no mundo e entender isso, ajudando não apenas a criar uma consciência coletiva, mas estendendo a mão para aquela pessoa perdida do primeiro grupo, pode ser o gesto que vai começar a mudar o mundo.

E esse gesto pode começar de você. Vai esperar ser tarde demais?

*

PS. São inúmeros casos de representatividade em inúmeras séries. Infelizmente, tive que deixar muitos que queria citar de fora (como Orange is the New Black Sense8, dois ótimos exemplos de representatividade que mostram porque a Netflix é uma das melhores coisas da “tv” atualmente e também Modern Family e Vicious ou mesmo as séries de Shondaland, que SEMPRE acertam nisso), por questão de uniformidade do texto e por não deixar isso aqui maior do que já está. Mas o espaço nos comentários tá aberto.  Comenta comigo outros exemplos bacanas que posso ter deixado passar aqui ou que talvez eu mesmo nem conheça ainda!

Jornalista, nerd, viciado em um bom drama teen, de fantasia, ficção científica ou de super-herói. Assiste séries desde que começou a falar e morria de medo da música...

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Petrolina / PE

Série Favorita: One Tree Hill

Não assiste de jeito nenhum: The Big Bang Theory

  • Me bate um orgulhinho de ter sido Dawson’s Creek a primeira série a fazer isso <3
    Da primeira vez que vi eu não entendi o quão importante era toda a discussão frente ao Jack. Todas as descobertas dele. O quanto isso ajudaria quem passa pelo mesmo drama com os pais, por exemplo.
    Aprendo muito com o que leio no twitter e nos blogs de LGBT+ mas ainda não sei todos os ângulos e perspectivas que deveria saber para opinar com propriedade. Aliás, nunca conseguiria me intrometer, entende? Mas seriados ajudam MUITO a ver melhor a realidade do grupo (gigantesco).
    Honestamente a único personagem bissexual do qual me lembro é a Callie de Grey's. Taí um ponto que ainda falta. Ah, e o Oberyn (que pra mim é incrível, porque ele não tem o estereótipo que a sociedade acha que os gays tem, né?).
    Tenho medo de comentar e falar alguma besteira, mas não queria deixar passar em branco o ótimo texto, Alê! Um beijo, seu lindo.

  • Pedro Fernando

    Alêee, texto lindo! É ótimo ver toda essa representação nas séries!

  • Aline Almeida

    Eu adoro series com diversidades seja ela qual for.Por isso, adorei esse texto que de forma critica fala da importância da representatividade gay!

  • Fran

    Lindo texto, senti falta de citarem will and grace.

  • Parabéns Alê pelo texto maravilhoso!
    Olhando por aqui vemos que ainda é preciso muito pra TV brasileira chegar perto do que já se vê lá fora.
    Ainda assim, hoje estamos sem séries que debatam exclusivamente a temática LGBT desde o fim de Looking. De qualquer forma é muito bom lembrar de Brothers and Sisters, por quem sempre terei um carinho especial.

    Parabéns novamente pelo texto e desculpa a demora. Estou pra comentar por aqui faz dias.

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